Posted by on Jan 26, 2011 in Fugas de informação | 0 comments

A Prémio Pessoa 2010 explica como é que podemos ensinar bactérias a destruir o cancro. Maria do Carmo Fonseca, bióloga molecular, esteve na VII Conferência da Indústria Farmacêutica organizada pelo Diário Económico. À margem do encontro, a professora explicou como é que bactérias alteradas podem servir como agentes suicídas para combater o cancro. Na entrevista mostrou ainda como é que a Humanidade pode vir a ter combustível através de algas sintéticas.

Diogo Carreira (DC): Numa altura de crise e de cortes orçamentais, é possível existir uma evolução, nomeadamente ao nível dos diagnósticos e tratamentos do cancro?

Maria do Carmo Fonseca (MCF): Os momentos como estes são críticos. Os modelos tradicionais da economia estão ultrapassados e as empresas que não usam tecnologia estão condenadas. A única solução para a economia de Portugal e de outros países é apostar na inovação. Na área da saúde há um aspecto importante a registar. Existe uma tendência para dizer que “quando há uma coisa nova, essa vai ser mais cara, o que vai aumentar os custos para o Serviço Nacional de Saúde, já que vão existir mais fármacos anti-cancro”. Os novos medicamentos tendem a ser mais caros e os Serviços Nacional de Saúde dizem muitas vezes que nem querem ouvir falar disso. No entanto, as novas drogas são realmente mais caras, mas são usadas num número muito restrito de doentes. Por outro lado, senão usarmos os novos métodos de diagnóstico que permitem identificar essas pessoas, estamos a desperdiçar. Há tratamentos que são caros, mas que podem ter uma enorme eficácia.

DC: Podemos concluir que desta forma aumentamos o custo de cada medicamento, mas podemos diminuir o custo total, uma vez que no limite vamos usar menos fármacos?

MCF: Vamos usar menos medicamentos, vamos diminuir os efeitos adversos porque não vamos sujeitar pessoas a efeitos secundários que não precisam desse medicamente. Obviamente vamos ter menos custos, porque usamos menos drogas em menos pessoas. Por outro lado, a eficácia aumenta porque as pessoas medicamentadas são quem vão ficar coradas.

DC: Também falou da criação de bactérias sintéticas que podiam ajudar no tratamento de cancro. Como é que isso iria funcionar?

MCF: Uma das ideias que está a ser trabalhada e ainda em fase de projecto é construir bactérias desenhadas para perceberem quando estão ao pé de um cancro. Quando a bactéria sente que está rodeada de células cancerígenas activa uma proteína à superfície que é reconhecida pela célula maligna por endocitóse. Uma vez lá dentro, a bactéria destrói essa célula, tal como uma bactéria patogénica destrói as células quando infecta um organismo. Ou seja, a ideia é ensinar bactérias a chegarem a um cancro, reconhece-lo, de forma a serem captadas por ele e puderem destruí-lo. É uma forma totalmente diferente de atacar cancros, uma forma biológica.

DC: Uma ideia teórica….

MCF: Uma ideia teórica que já tem alguns indícios de que pode funcionar. Neste momento já sabemos ensinar bactérias a reagir à luz ou a gradientes de concentração. Uma das características dos cancros é que o nível de oxigénio é mais baixo. Se ensinarmos a bactéria a reconhecer hipóxia, um nível de oxigénio mais baixo, é uma das formas da bactéria perceber que está no meio de um cancro.

DC: Nestes casos existe sempre a hipótese de usar estas tecnologias para o bem, mas também para o mal. Não existem aqui riscos?

MCF: O risco é inferior aos benefícios. O perigo destas bactérias alteradas espalharem-se pelo meio ambiente e provocarem uma catástrofe ecológica é extremamente baixo. Como alteramos as vias metabólicas dos organismos, estes deixam de conseguir sobreviver no meio ambiente. Por outro lado, as regras para fazer alterações em organismos dizem que tem de se introduzir genes suicídas que fazem com que a bactéria se auto-destrua em contacto com o meio ambiente. Existe, no entanto, outro risco mais difícil de controlar: pessoas que querem usar estas tecnologias para fazer armas biológicas com objectivo de actos terroristas. Neste caso, temos de usar todos os meios de prevenção. Mas também lhe digo: é mais fácil fazer uma bomba do que criar um micro-organismo patogénico.

DC: Também é verdade que há quem pense ser possível criar organismos que podem transformar CO2 em combustível. Como é isto possível?

MCF: É uma ideia que muitos cientistas acreditam que venha a ser possível e eu tenho a mesma convicção. Daqui a 10 ou 20 anos deverá ser possível criar algas sintéticas que captam CO2 da atmosfera, produzido pelos carros e pelas fábricas. Através da fotossíntese vão ser capazes de converter os gases poluentes em combustível. É uma forma de termos gasolina, mas gasolina viva, em vez de ter origem no petróleo fóssil.

DC: Seriam algas para não ocuparem as zonas agrícolas…

MCF: Exactamente. Um dos problemas do biofuel é que este é derivado do cultivo. O Brasil é um dos países mais avançados na área. É preciso cultivar as plantas que depois vão ser a base da fermentação. Se quisermos obter energia suficiente para manter toda a Humanidade a funcionar, entramos em concorrência entre zonas agrícolas para produção de alimentos, com as zonas agrícolas para produção de biofuel. Esta não é a solução ideal e as algas têm a vantagem de não competir com as área de produção alimentar.

Boas palavras para todos

Notas: Entrevista feita para o EconómicoTV no Pestana Palace Hotel, em Lisboa, a 20 de Janeiro de 2011. Imagem retirada da internet.