Posted by on Nov 30, 2010 in DISSERTAÇÃO | 0 comments

1. A SOCIEDADE A ENTRAR NA INTERNET

1.1 O primeiro Log-in da Humanidade

“Charley começou a fazer o login para o servidor do SRI HOST, a partir do nosso UCLA HOST. Para isso, tinha que escrever a palavra “login”. Ambas as máquinas eram suficientemente inteligentes para perceber que quando fosse escrito log, seria adicionado o resto da palavra e as letras “in” iriam aparecer. O Charley começou. Escreveu o “L” e avisou o outro lado que já o tinha feito (na realidade Charley tinha recebido o eco da letra que tinha escrito, o programador tinha avisado: ‘tenho o L’). Depois continuou a escrever o “O”. Recebeu a confirmação verbal que a letra tinha chegado ao outro lado. Depois, Charley colocou o “G” e avisou o companheiro que estava a escrever a letra “G”. Nesse mesmo momento, a máquina na SRI crachou!! Algo estava a começar’ (Naughton 1999: 139).

Esta descrição foi um dos grandes passos que vieram a dar origem à internet tal como a conhecemos, estávamos nos EUA, no ano de 1969. As palavras foram de Leonard Kleinrock, quem dirigia a primeira comunicação dentro da ARPANET, uma rede similar à nossa net. Na verdade, a primeira ligação do que viria a mudar a forma como olhamos para a comunicação e para as relações inter-pessoais foi interrompida por um falhanço.

Fazer uma breve introdução histórica de uma realidade tão complexa como foi o nascimento e o crescimento da internet é uma tarefa que não pode ter fim em si mesma. Tal como refere Jonh Naughton na obra A Brief History of the Future: The Origins of the internet não é fácil. “Como todos os grandes sistemas da engenharia, a internet não nasceu com um grito ‘Eureka!’” (Naughton 1999: 77). Porquê escolher começar a nossa descrição no século XX e não recuar até aos anos de 1623 quando foi inventada a calculadora? Ou quase 200 anos depois quando surgiu a primeira máquina de calcular comerciada?

Estes recuos não seriam absurdos uma vez que a internet, antes de se tornar a rede gigante que liga todos os pontos do planeta, nasceu de especialistas em matemática e cálculo. A informação que passa entre as diversas máquinas são códigos compostos por 0 e 1, o que não torna difícil perceber que esta ciência não está, de todo, separada do desenvolvimento da net. Mas o surgimento não acontece por uma mera curiosidade. A necessidade militar (e de defesa) no contexto da Guerra-fria foi a alavanca essencial para o projecto da ARPANET arranjar financiamento e interesse governamental, por muito que se possa admitir que alguns dos profissionais envolvidos no processo não tivessem esse como objectivo final.

Antes de nos lançarmos nesta palavra estranha, ARPANET, podemos recuar um pouco e ir ao nascimento do Massachusetts Institute of Techonology (MIT), em 1861. Não nos vamos estender na criação desta instituição, mas devemos guardar este nome nas nossas cabeças. Foi pelo MIT que muitos dos intervenientes desta longa história passaram, desenvolvendo contributos importantes para o grande projecto que viria a nascer.

A ARPANET começou no seio da ARPA, um departamento do Governo norte-americano que surgiu no ano de 1958. Com o nome de Advanced Research Projects Agency, este organismo instalou-se no Pentágono e tinha como objectivo manter os EUA na liderança do sector tecnológico. O impulso que fez com que a ARPA ganhasse força foi o lançamento do Sputnik[1], pela antiga União Soviética. No site da agora chamada DARPA é recordado que “o lançamento do Sputnik por parte da União Soviética mostrou que eram necessárias mudanças profundas na defesa norte-americana e nos projectos tecnológicos. A ARPA (que mais tarde se veio a chamar DARPA) nasceu para responder a esta necessidade e renovar a capacidade de defesa”[2].

No início, a ARPA tinha a seu cargo projectos relacionados com o desenvolvimento de mísseis, assim como programas espaciais norte-americanos. Estes objectivos foram alterados, uma vez que no mesmo ano surge a National Aeronautics and Space Administration, mais conhecida por NASA. A nova agência ficou com tudo o que era relacionado com o Espaço, assim como grande parte do orçamento.

Estávamos na época conhecida por Guerra-fria, em que o poder militar era o centro do (des)iquilíbrio mundial. A ARPA podia ter visto o seu fim com a chegada da NASA, mas o departamento começou a desenvolver projectos de interesse para o exército. Podemos falar de alguns nomes marcantes da vida da ARPA, como o primeiro cientista que liderou o organismo, Jack Ruína que convidou J. C. R. Licklider para integrar a equipa. Este último teve um importante impacto na vida do departamento, já que nos anos seguintes do seu trabalho, calcula-se que 70 por cento dos computadores para investigação científica nos EUA tivessem saído daqui (Naughton 1999). Foi também este especialista que levou à criação de programas que, entre outros, resultaram na invenção do famoso rato de computador.

Licklider deixa a ARPA em poucos anos, tendo marcado profundamente a relevância do departamento, principalmente no sentimento que criou dentro da equipa em relação, por exemplo, à utopia de que a tecnologia informática poderia levar a um mundo melhor, a par de uma integração entre homem e máquinas (Naughton 1999). Bob Taylor seguiu-se no departamento, vindo da NASA. Uma das primeiras questões que levantou estava relacionada com a falta de comunicação. No Pentágono existiam terminais para cada um de três sistemas da ARPA: um no MIT, outro no SDC e outro em Santa Mónica, este último de onde Licklider veio.

É difícil contar a história da internet de uma forma sequencial e ainda mais complicado seria dizer quem é o pai da rede. No entanto, existe outro nome que fica na génese da net: Paul Baran. Ao mesmo tempo que a ARPA se desenvolvia, o especialista nascido na Polónia viveu nos EUA desde os dois anos. Aos 30 anos entrou no RAND, um think-thank formado em 1946, financiado pela Força Aérea norte-americana. Paul Baran tornou-se muito interessado em desenvolver uma rede de comunicações à prova de um ataque nuclear. O problema era simples, se a Rússia lançasse um ataque nuclear, as comunicações seriam facilmente interrompidas.

Para desenvolver o plano que iria apresentar, Paul Baran teve três premissas. Primeiro tinha de ser um sistema descentralizado, uma vez que tendo um ponto central seria muito fácil a sua destruição. Segundo, tinha de ser construído através de nódulos, todos interligados entre si, e terceiro, teria que ter uma certa redundância, ou seja, mais formas de ligação do que um para um. Por fim, o pensamento de Paul Baran chegou ainda a uma outra situação: o sinal tinha de ser digital, composto de 0 e 1. Porquê? Se fosse recorrer a sinais analógicos, a transmissão iria degradar-se devido à redundância que se queria ter. Tal como quando copiamos uma cassete uma vez, e depois fazemos outra cópia da cópia e por aí fora, o som iria ser destruído. Já com a transmissão digital isso não acontece e, caso haja deterioração do sinal, este pode ser corrigido.

Uma outra ideia importante para o desenvolvimento da rede de comunicações foi a divisão das mensagens em pequenos “pacotes”. Dividindo-a em blocos, poderia inundar a rede com segmentos, que viajavam por diferentes caminhos, de forma a chegar ao destino separadamente. Assim, caso uma via fosse destruída, haveria sempre outra saída. A questão que se colocava era que sem um ponto central, como evitar que a mensagem se perdesse. O sistema encontrado foi fazer com que cada nódulo tivesse uma tabela com os melhores caminhos até ao destino de forma a que, em tempo real, a informação pudesse prosseguir até ao ponto de chegada. Assim, e mais uma vez, não haveria grandes problemas em caso de quebra de uma ligação. Quem utiliza actualmente programas de downloads, como o antigo Kazaa ou Emule, reconhece estes “packs”, uma vez que a informação não chega inteira ao nosso computador, mas sim em pedaços.

O conceito estava terminado em 1962 (ainda Licklider estava a chegar à ARPA). Esta rede seria constituída por 1 024 nódulos, que recebiam e enviavam blocos de mensagens (Naughton 1999). Eram de pequenas dimensões, estavam distanciados por perto de 20 milhas, para além de terem uma capacidade de se manter activos pelo menos durante três meses em caso de falha de energia.

No entanto, a ideia recebeu muitos críticos na altura, principalmente dos responsáveis pela AT&T, empresa de comunicações. Tal como em todos os processos e evoluções tecnológicas há opositores. Aliás, a entrada da própria internet na sociedade não é pacífica e é olhada com relutância por alguns, como iremos ver mais à frente. Aquela companhia era responsável pelo monopólio das comunicações, de longa distância dentro do país, para além de que todo o tráfego de telefone militar passava pela AT&T. Paul Baran chegou mesmo a publicar a ideia em 1964, algo que parecia estranho já que estava dá-la a todo o mundo. No entanto, Paul Baran explica que “os EUA eram mais seguros com um sistema de comando e controlo resistente, mas seriam ainda mais se a URSS tivesse igualmente um sistema deste tipo!” (Naughton 1999: 105) O projecto acabou por ficar na gaveta, pelo simples facto que Paul Baran sabia que se lutasse na altura pela ideia e se essa fosse rejeitada, o que seria de esperar, dificilmente alguma vez seria recuperada.

Mais tarde, Donald Davies, no Reino Unido teve mais ou menos o mesmo projecto sem ter conhecimento do trabalho de Paul Baran. Depois, em diferentes conferências, foi desenvolvendo a ideia e quando se juntou com profissionais norte-americanos o conceito de Paul Baran veio a público com mais força do que nunca. Daí ao nascimento da ARPANET[3] foi um passo.

A primeira tentativa está descrita no início do nosso trabalho. Foi em 1969, com a ligação a ser feita entre a UCLA, Universidade da Califórnia em Los Angeles, e a SRI, o Stanford Research Institute. Outros dois pontos formaram a primeira rede, um situado na UCSB, Universidade da Califórnia em Santa Barbara, e outro na Universidade de Utah. Em 1973 a rede passou o oceano, com ligação à Universidade de Brighton, no Reino Unido.

Estas são as bases da internet, que começou na ARPA, com a rede a chamar-se ARPANET, financiada pelo governo dos EUA. Rapidamente se espalhou pelo mundo e em duas, três décadas, revolucionou os hábitos, os negócios, a sociedade e o mundo. A internet pode mesmo ser vista como a extensão do cérebro humano.

“Hoje, mais de um século depois de tecnologia eléctrica, estendemos o nosso sistema nervoso central a todo o globo, acabando com o tempo e o espaço no que toca ao nosso planeta. Rapidamente chegamos à fase final das extensões do homem, ou seja, a simulação tecnológica da consciência, quando o processo criativo do conhecimento for colectivo e extenso a toda a sociedade humana, tal como estendemos os nossos sentidos e nervos através dos diferentes meios” (McLuhan, 1995)

Se a sociedade sofreu grandes mudanças com a introdução de ferramentas como a máquina a vapor e a luz eléctrica, é igualmente verdade que o crescimento da chamada internet veio igualmente modificar a vida das pessoas, como a maneira de desenvolver os negócios e empresas. É inquestionável que cada companhia tem de ter consciência do poder que tem a presença, ou a falta dela, neste mundo considerado por muitos virtual.

A internet veio mesmo abrir caminho ao que Castells chama de “cultura da virtualidade real”, uma das características das sociedades informacionais que vamos descrever (Castells 2006). Nas suas palavras,

“É virtual porque está construída principalmente através de processos virtuais de comunicação de base electrónica. É real (e não imaginária) porque é a nossa realidade fundamental, a base material com que vivemos a nossa existência, construímos os nossos sistemas de representação, fazemos o nosso trabalho, nos relacionamos com os outros, obtemos informação, formamos a nossa opinião, actuamos politicamente e alimentamos os nossos sonhos. Esta virtualidade é a nossa realidade” (Castells 2004, citado por Cardoso 2006: 120).

McLuhan defende que cada meio é a extensão do homem: a roda é extensão das pernas, a roupa é a extensão da pele, os circuitos eléctricos são a extensão do sistema nervoso central (McLuhan 1967). Para alguns autores, a internet tornou-se como que uma extensão do cérebro humano, uma rede onde a informação e o conhecimento circula livremente. No entanto, mais do que a extensão do nosso cérebro, a internet cresce para ser a extensão da nossa vida. As redes sociais tornam-se ruas e estradas, os grupos e comunidades virtuais cada vez mais especializados, identificam-se com os cafés e salas de tertúlias, enquanto que a partilha de imagens e de filmes lembra a sala de cinema onde todos vêem determinado vídeo. Mais, os anúncios de lado de cada página ganham formatos interactivos que tendem a fazer o mesmo que os folhetos distribuídos nas ruas ou os outdoors, apesar da publicidade online ainda não ter um peso e força significativa, pelo menos admitida, tema a ser abordado no capítulo do modelo de negócio a adoptar nos jornais. Nem os meios de comunicação social conseguem fugir a esta realidade e tiveram de entrar nesta “Aldeia Global”. Enquanto que a televisão e a rádio conseguem produzir conteúdos que não são palpáveis, os jornais tiveram um esforço acrescido de passar do papel para o online. Tornar algo que se transportava, em algo virtual, imaterial.

A ideia de Aldeia Global de Marshall McLuhan retrata bem a nova realidade. Na obra Understanding Media o autor refere que o Homem depois de desenvolver meios que seriam extensões do corpo, “o mundo tornou-se numa aldeia” (McLuhan, 1995). McLuhan defende que o “meio é a mensagem” e que “o conteúdo de cada meio é sempre outro meio” (McLuhan, 1995). Para explicar este ponto de vista, o autor dá exemplos como o conteúdo da escrita é o discurso, tal como a palavra escrita é o conteúdo da tipografia. Seguindo ainda a ideia de que a mensagem de cada meio ou tecnologia é a mudança de escala, ritmo ou estrutura introduzida nas questões humanas (McLuhan, 1995), podemos fazer a transferência da ideia para a questão da internet. Aqui, o aparecimento da rede levou à criação das extensões dos jornais num formato online. Desta forma, podemos olhar para a rede global como um meio que tem diferentes conteúdos e, por isso, diferentes outros meios. Usando o exemplo de McLuhan, a electricidade não tem conteúdo por si. É um “meio sem mensagem, a não ser que divulgue um nome”, escreve. Com a internet a situação parece ser semelhante: a simples existência da rede não significa que sejam criados novos conteúdos.

A mera existência da rede não definiu o caminho da sociedade, mas o seu desenvolvimento levou a que a sociedade cada vez mais tirasse partido dela, incluindo-a nos seus hábitos e rotinas. Podemos considerar que a imprensa é o órgão que mais sofreu, apesar de todos terem sofrido com o impacto da internet. A nossa análise começa por perceber como é que a internet entrou nas nossas sociedades e depois como é que os jornais estão a reagir a certos estímulos. Nessa altura, McLuhan vai ajudar-nos a demarcar a diferença entre as edições em papel e as edições online dos títulos.

1.2. Uma Sociedade (inter)ligada em rede

O desenvolvimento da Humanidade sempre andou acompanhado com um crescimento das formas de comunicação. O nascimento do papel na China foi, sem dúvida, um ponto relevante no percurso do Homem ao longo da sua história. O poder que esse meio de comunicação veio a ter sempre foi alvo de análise em diferentes alturas. Ao mesmo tempo, o poder de informar ou mesmo de impedir que a informação chegue a um maior número de pessoas, sempre foi rodeado de debate em relação ao caminho que as comunidades iriam tomar. Ainda hoje, o poder de Estados, como na China, em bloquear a informação é olhado pela maioria dos ocidentais como uma força abusiva de controlo. Daí que a informação tenha sido sempre um factor a ter em conta no desenvolvimento.

O crescimento exponencial das tecnologias de comunicação, principalmente com o impulso da internet nos anos 90, leva a que seja relevante para a nossa análise perceber o impacto que estas tiveram na sociedade e de como a circulação de informação e conhecimento podem afectar as nossas vidas, tanto a nível económico, como empresarial e pessoal. Para Castells os conceitos de “Sociedade da Informação” e “Sociedade Informacional” são distintos (Castells 2007). O primeiro sublinha a importância da existência da informação, enquanto que o segundo destaca que a produção, processamento e transmissão da informação são as principais fontes de produtividade e do poder, apoiadas nos avanços tecnológicos. Mais do que dar importância ao aumento de fluxo de informação, o autor pretende mostrar que estas novas sociedades desenvolvem-se em torno dos avanços das novas tecnologias de informação. Parece que podemos admitir que esta Sociedade Informacional é um termo mais económico, na medida em que explica mudanças nos métodos de produção, no emprego, nas relações laborais, entre outros. Um dos factores para esta sociedade informacional ter sido um dos marcos das mudanças da actualidade é a sua interligação em rede.

Gustavo Cardoso demonstra que o conceito de Sociedade de Informação surge de uma forma mais política (Cardoso 2006), principalmente pelos discursos no seio da União Europeia. Segundo o autor português, Manuel Castells recorda que a denominação de Sociedade de Informação surgiu no Japão, em 1969. Foi o Ministério de Comércio Internacional e Indústria daquele país que aplicou esta expressão e que mais tarde foi levada para o ocidente. Nos anos 90 assistiu-se à aplicação desta denominação no velho continente.

O Relatório Delors é considerado um primeiro momento no entendimento do que seria a Sociedade de Informação na Europa (Cardoso 2006). No entanto, o documento faz referência à importância económica da revolução tecnológica, deixando de lado o impacto social que esta viria a ter. Ao longo dos anos seguintes cresceu a importância dada às novas tecnologias. A Europa percebeu que tinha de chegar ao nível dos EUA ou mesmo do Japão. Assim, o conceito de Sociedade de Informação foi ganhando força no discurso, mas ganhou grande ambiguidade.

Para uns, a Sociedade de Informação tem um carácter mais económico, na medida em que a informação começou a gerar valor. Outros acreditam que a ideia representa o aumento da informação ou mesmo o crescimento do número de pessoas que trabalha nessa área, na educação e na investigação (Cardoso 2007).

Desta forma, Gustavo Cardoso defende, ao lado de Castells, que esta não é a melhor forma para descrever as alterações na sociedade. Trata-se muito mais de um conceito da linguagem política, que rapidamente se adaptou à definição de objectivos. Aliás, os próprios media começaram a utilizar a expressão, mesmo que o seu significado não fosse concreto. Com isto não queremos dizer que não represente nada. “Existe como construção social, o que não é o mesmo que afirmar que existe” (Cardoso 2007: 100). E à pergunta concreta se a Sociedade de Informação existe ou não, o autor responde:

“A resposta mais correcta será que a Sociedade de Informação existe enquanto conjunto de objectivos, essencialmente de carácter político, desenvolvido no contexto das instituições da União Europeia, depois apropriado pelos países membros da União e posteriormente incorporado no discurso de muitas organizações multilaterais de carácter político e económico global” (Cardoso 2007: 99)

Para entendermos as mudanças na imprensa, devemos enquadrar o sector no contexto mundial. Quando nos referimos a estes processos evolutivos, não conseguimos dizer que todo o Mundo é agora uma sociedade informacional ou muito menos que tem uma economia informacional, ou seja, em que o processamento e distribuição da informação se torna essencial para a produção. O mesmo acontece quando falamos do acesso à internet em diferentes países ou mesmo das liberdades em cada nação. Por muito que um jornal esteja on-line e, consequentemente, possa ser consultado a partir de qualquer parte do mundo, existem sempre outros factores que podem impedir que seja lido. Não podemos colocar na mesma categoria a sociedade informacional portuguesa, espanhola ou mesmo francesa, e a chinesa. É necessário sublinhar as distinções culturais (Castells 2007). No entanto, esta última potência tem registado crescimentos astronómicos no que toca a números de desenvolvimento tecnológico, como é o exemplo do disparo de acessos à net.

O importante nesta ideia é que o mais relevante não é a centralidade do conhecimento e da informação, mas sim a aplicação de ambos na produção. Esta nova economia, também apelidada por informacional, não é igual em todos os pontos. Castells sublinha que as “sociedades informacionais, como existem actualmente, são capitalistas” mas que “temos que salientar as diferenças culturais e institucionais das sociedades informacionais” (Castells 2007:24). Ou seja, com isto não queremos dizer que a China ou o Brasil fazem parte do mesmo capitalismo informacional em que estão integrados os EUA.

Assim, o informacionalismo é um novo modo de desenvolvimento que não substitui o modo dominante de produção, apenas o altera. No fundo, o consumismo e a procura de lucro continuam a ser parte da cultura da nossa economia. Talvez por isto, os jornais estejam a viver uma época tão difícil e as questões sobre a sua sobrevivência estão a levantar-se. O papel está cada vez mais caro numa sociedade que, como vamos ver, está interligada e a informação espalha-se facilmente sem necessidade de um suporte físico, para além de já não fazer os grandes lucros do passado. Um jornal não acaba porque alguém o fecha, o jornal acaba (ou torna-se obsoleto) porque deixou de ser um canal de distribuição rentável.

Feita a distinção entre sociedade de informação e informacional, é conclusivo que está a surgir no mundo uma nova economia. Castells apelida-a de informacional, já que a produtividade e competitividade dos intervenientes está dependente da capacidade de gerar, processar e aplicar a informação baseada no conhecimento (Castells 2007). Por outro lado, a nova economia é também global, uma vez que as alterações acontecem em todo o lado, com as consequentes mudanças nas principais actividades económicas, desde a produção até à distribuição. Devemos sempre recordar que, apesar de global, não podemos esquecer as complexas diferenças culturais e da própria organização de cada região e/ou nação.

1.3. A Rede

Existe ainda uma outra característica desta nova economia, descrita por Castells, que está a deixar os jornais asfixiados, ou pelo menos em muito contribui para a encruzilhada em que a imprensa está nos dias de hoje. Para que o informacionalismo e a globalização resultem no que foi atrás exposto, é necessário entender que a nossa sociedade (ou as nossas sociedades actuais) estão ligadas em rede. O desenvolvimento da capacidade de comunicação através da internet nos anos 90 e no início do século XXI vieram acentuar o impacto da rede global em todos campos da vida em sociedade. A rede não poderia crescer sem a proliferação de computadores pessoais, o que levou à explosão não só de empresas no ramo da informática e da internet, como também de software. Nem o colapso da internet bubble no índice norte-americano Nasdaq fez com este ramo deixasse de ser promissor. Em 2002, a WebEx Communications, empresa de informática de software e hardware, teve uma taxa de crescimento de 72 por cento, sendo que nos últimos cinco anos tinha crescido 186 por cento. A UT Starcom, empresa de wireless, internet e redes 3G tinha uma taxa de crescimento a cinco anos de 71 por cento e só nesse ano cresceu 57 por cento para os 982 milhões de dólares. Já o eBay cresceu 62 por cento em receitas, para os 1,2 mil milhões de dólares e os ganhos no mercado de valores subiram 165 por cento. No ano em questão, a empresa de consultoria de tecnologias de informação Cognizant Technology Solutions conseguiu aumentar as receitas em 29 por cento, para os 229 milhões de dólares no mesmo ano. [4]

Ao usar o protocolo comum da net, os computadores ligados à rede podem comunicar entre si de várias formas, o que permite a sua utilização para negócios, lazer, sociabilizar, aprender e, claro, informar. Para além da comunicação através destas unidades, os computadores, o poder da rede global chegou a outros aparelhos. Hoje em dia pode-se aceder à internet através de um iPhone, de um HTC, ou mesmo de telemóveis de mais baixo nível de evolução. Novos gadgets continuam a aparecer com essa possibilidade.

Desta forma, começou a nascer um canal que torna a comunicação entre os agentes na sociedade mais directa, tirando de cena os intermediários. Isto é bem visível nas redes sociais. As marcas não precisam de outdoors, basta terem uma página no Facebook. Apesar de ainda existirem muitas dúvidas em relação ao efeito prático da publicidade na net e desta relação próxima marca/cliente, a verdade é que as companhias cada vez mais apostam em estratégias deste tipo. Mas antes das redes sociais, começaram a existir os websites. Páginas na internet que através de softwares idênticos usam a linguagem universal da rede para servirem de pontos de venda, informação, publicidade e até mesmo de correspondência com os utilizadores, um dos grandes desafios aos jornais online.

Diferentes companhias ligam-se umas às outras para conseguirem melhores resultados. A troca de informação e as alianças estratégicas tornaram-se realidades cruciais para o futuro de cada companhia. Falamos aqui não só de empresas que se juntam para desenvolver novos produtos, mas também de modelos em que a produção é dividida por várias companhias, depois de uma patente ser concedida por uma grande empresa. (Castells 2007). Estas ligações inter-empresariais, nomeadamente quando falamos de grandes companhias, podem ter uma duração curta. Ou seja, determinada aliança pode funcionar apenas para determinado projecto.

Manuel Castells utiliza a divisão feita por Dieter Ernst para exemplificar a criação de redes entre as diversas empresas no mundo, principalmente nos sectores de ponta. O autor define cinco diferentes grupos: “redes de fornecedores”, “redes de produtores”, “redes de clientes”, “coligações de padronização” e “redes de cooperação tecnológica” (Castells 2007).

A primeira rede é descrita como os acordos de subcontratação, fabricação de equipamento original e fabricação de design original. A segunda abrange os acordos de empresas para unirem esforços estratégicos de produção, de forma a conseguir abranger uma maior área geográfica ou, por exemplo, aumentar a capacidade de produção. A rede de clientes define as ligações entre indústrias e distribuidores, tal como entre canais de comercialização, revendedores de valor acrescentado, em mercados nacionais ou internacionais. Resta ainda explicar as coligações de padronização, onde se englobam os potenciais definidores de padrões globais, e ainda as redes de cooperação tecnológica, que facilitam a obtenção de design de produtos e tecnologia de produção.

Apesar destas divisões surgirem na análise de empresas em geral, parece ser possível fazer uma ligação com o sector dos jornais. Podemos colocar a hipótese de que a primeira rede liga as agências de design, responsáveis pela criação das imagens dos sites e reformulações de títulos, às empresas de media. Acontece muitas vezes que sejam consultoras externas a criarem as imagens dos jornais. Por exemplo, quem fez o grafismo do jornal i, a espanhola Innovation, também foi responsável pela reformulação do Expresso e da sua revista Única, uns tempos antes (Carreira 2008).

Passando para a segunda rede, falamos da ligação que existe entre os jornais em si. Não são raras as sinergias entre cadeias de televisão de diferentes países que mesmo a tenderem a ser concorrentes na internet, optam por partilhar conteúdos.

A terceira é a ligação entre os jornais e os leitores (os clientes) ou com os agregadores de conteúdos, como são exemplos portais como Sapo e IOL. Estes funcionam um pouco como revendedores, já que optam por fechar parcerias como é o caso do portal da PT com o Diário Económico ou o Jornal de Notícias. Na página principal do Sapo, as notícias vão sendo actualizadas com redireccionamentos directos para as páginas dos respectivos parceiros. Por outro lado, são feitos acordos publicitários.

A quarta é a ligação que existe entre as próprias agências que fazem estas páginas, o que leva a uma padronização, já que também são modelos que funcionam com os cibernautas. Tal como vamos ver, basta ver os sites do Público, El Mundo, El País, que se nota igualdades: o problema da internacionalização dos formatos. Por fim, a quinta ligação neste caso, podíamos entender as redes criadas entre as grandes empresas de softwares que permitem aos jornais viver na net.

Este espírito do informacionalismo, como apelida Castells, não é uma nova cultura, no sentido que a conhecemos. As empresas em rede podem adoptar posições diferentes em certo momento e num negócio específico. É uma força que está sempre a actualizar decisões importantes, mas que não dura muito tempo. As empresas em rede que não se alteram, que mantém a mesma posição e as mesmas decisões acabam por se tornar obsoletas. Assim, nas palavras do autor, esta é

“uma cultura do efémero, uma cultura de cada decisão estratégica, uma amálgama de experiências e interesses, mais que uma carta de direitos e obrigações. É uma cultura multifacetada e virtual.” (Castells 2007: 263).

O estar em rede para os jornais parece ser mais um problema do que uma boa novidade. Problema no sentido de desafio. Se para muitos sectores a rapidez da informação é uma vantagem, parece que tem sido uma dificuldade para os media impressos. Isto porque se por um lado a informação e as notícias chegam mais depressa a qualquer lado, também é verdade que deixa de haver a necessidade de existirem empresas dedicadas exclusivamente a esta tarefa.

A sociedade em rede, ao modificar as empresas e a gestão das companhias, veio igualmente modificar o emprego, assim como os processos de trabalho. As máquinas vieram exigir pessoas mais qualificadas, autónomas, prontas a deixar o trabalho rotineiro e a tomar as decisões necessárias. Se entre 1920 e 1970 a empregabilidade caiu drasticamente no sector agrícola nos países do G7 (Castells 2007), já entre os anos 70 e 90 foi na indústria que se sentiram quebras, passando o sector dos serviços a ganhar força, especialmente nos EUA. Na área de informação acontece o mesmo, uma vez que nas últimas décadas o peso da população activa no sector tem vindo a aumentar. Segundo dados reunidos por Manuel Castells, o índice não é superior a um por cento em 1990 em nenhum dos sete países. Os EUA lideram no emprego na informação, enquanto que a Alemanha e a Itália têm números mais baixos, ainda que tenham duplicado os valores nas últimas décadas.

E se foi nos anos 80 em que a microelectrónica começou a entrar na indústria, foi na década de 90 que as ligações informáticas e em rede começaram a fazer parte, a um ritmo acelerado, do sector do processamento da informação, definido por Castells como o “principal componente do sector dos serviços” (Castells 2007: 314).

Umas das críticas no debate sobre as mudanças no trabalho e no emprego é a ideia de que estas alterações vieram causar sérios problemas no mercado de trabalho. Muitas vezes, a evolução das tecnologias é olhada como razão para que existam cada vez menos postos de trabalho. No entanto, a análise de Castells desmente esta ideia. Para o autor, a tecnologia não é em si a razão da reorganização dos métodos de trabalho, nem a causa para um possível declínio do emprego. Antes, é o que os agentes decidem fazer face à evolução das tecnologias (Castells 2007). Para o autor são, por exemplo, as decisões de gestão, as políticas governamentais e a cultura que define o caminho que a sociedade e o emprego levam. Desta forma, o impacto da tecnologia só pode ser entendido quando analisado todo o sistema social em que acontece[5].

Assim, a entrada das tecnologias de informação nos escritórios, indústrias e demais empresas não vieram substituir por completo a necessidade de mão-de-obra. A importância dos recursos humanos aumentou, uma vez que começaram a ser concedidos maiores poderes e responsabilidades nos níveis baixos da produção. O que começa a desaparecer são tarefas rotineiras e repetitivas que passam a ser levadas a cabo pelas maquinarias que estão programadas para as realizar. O trabalho informacional, conclui Castells, é “determinado pelas características do processo de produção informacional” (Castells 2007: 317).

1.4. Trabalho informacional

Manuel Castells define algumas características do trabalho informacional que dizem respeito a diferentes sistemas produtivos. Para a nossa análise que irá debruçar-se essencialmente no trabalho dentro das redacções e de como este foi alterado e é ameaçado, de certa forma, sublinhamos alguns dos pontos. Um deles parece ser crucial: “o valor acrescentado é, sobretudo, gerado pela inovação quer de processos, quer de produtos” (Castells 2007: 317). O autor refere-se aqui aos chips e aos softwares que vão condicionar a forma como a indústria evoluiu, mas na verdade, é exactamente nesta necessidade de gerar novos produtos e conteúdos que reside uma das discussões sobre o caminho que a imprensa no online está a seguir. Os autores que acreditam no futuro dos jornais recomendam vezes sem conta que o que é feito online tem que ser original, novo. No capítulo dos modelos de negócio vamos ver que a cobrança de conteúdos estará intimamente ligada à capacidade de serem produzidos trabalhos únicos.

Apesar de alterações significativas, não é a tecnologia que causa desemprego (Castells 2007). Apesar destas reduzirem o tempo de trabalho necessário para cada pessoa, as decisões sociais é que vão pautar o destino dos trabalhadores. Por outro lado, vão sendo exigidos mais e melhores qualificações. Aqueles que se recusem a adquirir as apelidadas por qualificações informacionais correm sérios riscos de serem excluídos do mercado de trabalho.

Os dados mostram que em pleno crescimento das tecnologias de informação, nos anos 80 e 90, os EUA, berço da internet, foi o país que mais emprego criou. Números da Comissão Europeia, publicados em 1994, revelavam que entre 1970 e 1992 os norte-americanos ganharam 49 por cento no nível de emprego. Já no Japão, o crescimento foi de 25 por cento. Dentro da Comunidade Europeia, o emprego cresceu nove por cento (Castells 2007). Dados do Eurostat, publicados em 2006, revelavam que o emprego continuava a crescer dentro do espaço europeu. No total de 2005, 63,8 por cento da população da Europa a 25 tinha trabalho, ou seja, crescimentos dos 63,3 por cento registados um ano antes e dos 62,4 por cento contabilizados em 2000.

Até ao início da grave crise económica, especificamente até ao segundo trimestre de 2008, o emprego crescia na União já a 27 e mesmo na Zona Euro. Apesar de no início de 2007 o crescimento ter sido de 0,5 por cento e no segundo trimestre de 2008 o crescimento ter caído para 0,1 por cento, a verdade é que a explosão das novas tecnologias não impediram que a economia fosse capaz de criar mais postos de trabalho nestas sociedades ocidentais.

Outra das características das mudanças no trabalho relevantes e apontadas por Castells é o surgimento dos trabalhadores flexíveis. A ideia de um contrato social prolongado entre a entidade empregadora e o trabalhador está a desaparecer, com destaque para os órgãos de comunicação social. Apesar de, como vimos, a introdução de tecnologias de informação não ser sinónimo de desemprego, a verdade é que as decisões políticas estão a levar a que o emprego se torne cada vez mais incerto e que se verifique uma individualização do trabalho (Castells 2007).

Por exemplo, o trabalho flexível permite que as tradicionais 35 ou 40 horas semanais não sejam uma regra, nem mesmo uma obrigação. Ao mesmo tempo, o compromisso de manter o emprego em determinada empresa começa a não ser obrigatório e até o próprio local de operar começa a ser posto em causa. O trabalhador não tem obrigatoriamente de estar num escritório, já que pode estar em funções em casa, noutra cidade, noutro país ou mesmo noutro continente.

Se por um lado as tecnologias de informação permitiram uma liberalização do emprego e uma facilitação na comunicação através de ferramentas online, por outro a má gestão destas novas possibilidades podem levar a situações preocupantes. A empregabilidade entre os jovens, mesmo nos jovens licenciados, está em níveis extremamente baixos e na área do jornalismo existem dificuldades em arranjar empregos remunerados. O excesso de falsos recibos verdes ou mesmo trabalhos temporários não pagos tem empurrado muitos jovens desta área para as redacções online. Sem experiência e sem segurança, a par de uma mudança de posto demasiado frequente, corre-se o risco dos sites de notícias, nomeadamente dos jornais, perderem a qualidade que os leitores procuram. Isto poderá levar a um descrédito cada vez maior em relação a estes profissionais, um ponto que será abordado mais à frente.

Apesar das novas tecnologias não serem a razão directa e única para o desemprego e as mudanças na estrutura do trabalho, são um motor importante na sua aplicação. É exactamente sobre a aplicação e gestão que recaem as atenções, pois é a forma como os patrões e a própria sociedade abraçam as novas ferramentas que vai decidir o caminho da sociedade e cultura em questão, seja ela uma nação, uma empresa ou um sector, como os jornais.

O Skillset, organismo britânico de formação para pessoas na indústria dos media, faz um balanço negro. Quase metade dos trabalhadores nesta área começou a preço zero. Isto é, 44 por cento tiveram que trabalhar de graça para entrarem no mercado (Brown 2010). Por outro lado, o mesmo estudo refere que o sector continua informal em relação à entrada de novos profissionais, enquanto que a cultura da “cunha” mantém-se.

1.5. A Rede e os media

Depois de termos reflectido sobre algumas mudanças que surgiram no seio da sociedade organizada em rede é importante definirmos o lugar dos media nesta nova realidade. Se o papel mudou a forma de comunicar da humanidade, antes, uma outra descoberta (criação) foi a base de muito conhecimento. O alfabeto tornou-se uma tecnologia importante para o desenvolvimento da humanidade e da perpetuação do conhecimento. Já a internet veio trazer novas realidades à sociedade, o processamento de informação e a sua transmissão foram igualmente afectados.

As novas possibilidades puseram muitos sectores da informação com sérias dúvidas em relação ao futuro, principalmente os jornais. Se também a rádio e a televisão tiveram que se adaptar à net, a verdade é que os jornais estão numa situação mais sensível: o que produzem é material, ou seja, imprimir papel custa dinheiro e é facilmente substituído pelo que é lido num qualquer computador. Na rede podemos juntar texto, imagens e sons, fazendo com que o velho papel compita com uma plataforma onde igualmente há texto, com tudo o que a rádio e a televisão oferecem.

A utilização das novas tecnologias de comunicação seguiu nos últimos anos três estágios, segundo Manuel Castells. Os dois primeiros são a “automação de tarefas” e as “experiências de utilização”. A terceira é denominada por “reconfiguração das aplicações” e acontece quando os próprios utilizadores vão transformando essas tecnologias (Castells 2007). A expansão destas ferramentas acelera, começando a surgir novas aplicações. Os utilizadores tornam-se, ao mesmo tempo, produtores, uma vez que está cada vez mais próximo de cada um a possibilidade de criar e modificar o conhecimento já difundido. O controlo da internet é um bom exemplo desta situação e é, aliás, um dos problemas que iremos apontar na adaptação dos media nos dias de hoje, nomeadamente na questão dos blogs.

Estas mudanças levaram a que os órgãos de comunicação social tivessem igualmente de entrar num mundo em rede, onde as fronteiras entre produtor / leitor começam a ser muito ténues, em parte derivado do facto da internet ser um meio híbrido, ou seja, capaz de aglomerar várias possibilidades, pondo em concorrência sectores que não o eram.

Já que os jornais foram, talvez, os mais afectados coloca-se a questão. Como é que se adaptaram a este nova realidade? Podemos inclui-los nesta Sociedade em Rede? Estamos perante novos sistemas de media que podem contar com a presença do papel?

O professor da Faculdade de Ciências da Informação, da Universidade Complutense de Madrid, David Parra Valcare, descreve a evolução da informação ao longo dos tempos. No artigo “O Fenómeno do Ciberjornalismo e sua Influência no Mercado da Informação”, o autor descreve a sociedade da Informação como

“um ciberlugar onde existe uma nova distribuição do trabalho, onde surgem ocupações inéditas e desaparecem outras clássicas, emergem nichos de mercados inovadores… Trata-se de um habitat interligado onde se pretende, a todo o custo, incrementar a velocidade dos processos produtivos enquanto se baixam os seus custos” (Valcarce 2009).

David Parra Valcare nota que as mudanças que as sociedades têm vindo a sentir têm afectado e alterado a estrutura da informação e o mercado jornalístico. O autor define quatro etapas que descrevem a passagem do que define de estrutura de informação, mais ou menos clássica, para a neociberestrutura da informação.

A primeira fase tinha como intervenientes as entidades fornecedoras e as entidades de difusão directa, isto é, as agências de informação e os meios tradicionais, como a imprensa escrita, rádio e televisão. A segunda fase inicia-se quando surgem as entidades geradoras, ou seja, os gabinetes de comunicação ou organização desse tipo. Assim surgiram dois circuitos para a informação (Valcarce 2009). O primeiro classificado como “imediato”, em que a entidade geradora comunica com a entidade de difusão directa, e o segundo como “mediado”, isto é, a informação passa da entidade geradora para a fornecedora, só depois passando para a de difusão directa.

A terceira fase tem como principal característica a criação da ciberestrutura da informação, o que acontece com a entrada dos jornais online. Começa a ser difícil definir em que tipo de entidade se colocam estes títulos, já que podem ser considerados de difusão directa, mas também como entidades fornecedoras. Isto porque uns podem funcionar como órgão tradicional, mas outros assumem-se como agregadores[6] (Valcarce 2009). Por fim, deparamo-nos com o surgimento da neociberestrutura, que é marcada pelo surgimento dos blogs. É exactamente este ponto que vamos debater quando falamos do papel do jornalista, de forma a percebermos como é que lidam com a nova realidade: um espaço onde os produtores se misturam com os consumidores, que pode ameaçar certos negócios caso a indústria dos media e do papel não se adapte.

Estas foram algumas das transformações que a sociedade veio a registar e que afectaram directamente os media, não só em Portugal, mas em todo o mundo. Apesar destas mudanças não acontecerem ao mesmo tempo nos diversos pontos do planeta, a verdade é que no global existem alterações. Tanto que Gustavo Cardoso defende uma mudança no sistema de media nos últimos anos, nomeadamente na década de 90 (Cardoso 2007). Utilizando a formulação de Peppino Ortoleva, o autor explica que por sistema de media entendemos as interligações entre tecnologias e organizações que estão por detrás do desenvolvimento das diferentes formas de comunicação. Esta denominação auxilia-nos a perceber a evolução dos próprios media e como cada sociedade absorve essas ferramentas estabelecendo as funções de cada um.

Os novos desafios económicos levaram igualmente a outras tendências dos media globais na área dos media. Gustavo Cardoso aponta algumas características deste novo sistema de media começando pela convergência (Cardoso 2007). Por exemplo, a união entre editores, fornecedores de acesso e de telecomunicações, broadcasters, entre outros. Esta foi uma ideia espalhada nos anos 90, mas que no entanto Gustavo Cardoso considera não ter sido bem sucedida. Apesar de terem existido projectos que conseguiram vingar, como é o caso da música em mp3 e o telemóvel, outros não tiveram tanto sucesso. Ligar a televisão à internet ainda não é um sucesso. No entanto, os agregadores de conteúdos como portais são um bom exemplo de convergência, funcionando como novo modelo de negócio.

Gustavo Cardoso segue depois para outra característica do novo sistema de media, adaptada da ideia de Peppino Ortoleva, a “aventura do conteúdo”. Mais uma vez, as necessidades económicas levaram a que os órgãos de comunicação encontrassem formas de rentabilização, o que conduziu à procura de novas estratégias para valorizar cada vez mais os conteúdos. Assim, o mesmo conteúdo tende a circular em diferentes plataformas.

Tendo a internet um papel central no desenvolvimento da sociedade em rede, ao mesmo tempo que alterou o sistema de media, surge uma pergunta que tem sido alvo de algumas análises. Afinal, será a internet um media? Ou mesmo um mass media? À primeira questão, parece que a resposta é pacífica. Tal como refere Gustavo Cardoso, a internet, ao lado da televisão, dos jornais e dos telemóveis, é um media (Cardoso 2007). Segundo o autor, por media entendemos as tecnologias que, de alguma forma, transmitem símbolos de forma codificada, tendo em conta uma base de entendimento entre emissor e receptor. Essa transmissão pode ser feita através de texto, som e imagem, individualmente ou de uma forma interligada. Neste caso, falamos de media multimédia que conseguem juntar numa mensagem vários tipos de códigos. Outra característica dos media é poderem ou não ser rentáveis (Cardoso 2007).

Por exemplo, a utilização do telemóvel é rapidamente paga. Com o mesmo se passa no caso dos jornais, que são adquiridos a um determinado preço. Já com a internet, ou mesmo com a televisão, o mesmo não se passa, mas não é por isso que deixam de ser considerados media.

Se parece não haver dúvidas nesta denominação, o mesmo já não acontece em relação à hipótese da internet ser um mass media. Esta questão levanta mais dúvidas e origina opiniões contraditórias. Alguns autores não consideram que a net possa ser considerada um mass media, na medida em que esta não difunde mensagens em simultâneo para uma audiência alargada. Ou seja, para certos investigadores, os mass media têm uma audiência constituída por milhões de indivíduos em simultâneo, tal como acontece com a televisão e com o rádio (Cardoso 2007).

No entanto, a ideia apresentada por Gustavo Cardoso parece-nos mais acertada. Um mass media não é classificado como tal tendo em conta, exclusivamente, o número de indivíduos que recebe a mensagem em determinado momento. Um dos autores que Gustavo Cardoso contraria é Dominique Wolton, uma vez que este último parte do princípio que um mass media tem de transmitir uma mensagem destinada a toda uma população. Ao mesmo tempo, é defendido na teoria que a internet se afasta desta denominação, uma vez que “não possui na sua génese uma representação do seu público-alvo e uma relação entre uma escala individual e colectiva” (Cardoso 2007:186).

Nesta análise sublinhamos o que defende Cardoso, ao recordar que nenhum mass media alguma vez dirigiu determinada mensagem a toda uma população ou conjunto de indivíduos com determinada cultura ou valores. Afirmar que a internet não é um mass media devido à dificuldade de nomear um determinado público é esquecer comportamentos actuais como o zapping. O telespectador não é um elemento passivo, que se senta em frente à televisão e consome aquilo que o mass media lhe dá. Cada vez mais é possível serem os indivíduos a escolherem o que querem ver e quando querem ver. O mesmo acontece na net, com as pesquisas aleatórias, ou pré-definidas.

Apesar de considerarmos mais correcto afirmar que a internet é um mass media, não podemos afirmar que toda a rede é um mass media. Isto porque não podemos entender esta tecnologia como uma única coisa. Ao classificarmos o meio desta forma, estamos a tomar a internet como um espaço de informação, disponível a todos, ou seja, apenas a vertente informativa, o que não corresponde à realidade. Na verdade, existem outras funções que estão longe de se incluir no âmbito de um mass media, como é o exemplo do e-mail ou das salas de chat. Assim, Gustavo Cardoso recorre-se à ideia de “campo” (Cardoso 2007). Por “campo”, entenda-se a delimitação para analisar um determinado objecto e, desta forma, podermos reflectir sobre os diferentes aspectos da internet.

Para isso, Gustavo Cardoso faz duas diferenciações: o “campo da comunicação interpessoal” e o “campo da comunicação de massas ou mass media” (Cardoso 2007). Assim se prova que a rede é um novo media: na mesma plataforma existem modelos de comunicação interpessoal e de massas. No campo da comunicação interpessoal, integramos o e-mail e as salas de conversação em tempo real, que permitem aos utilizadores falarem, por voz ou escrito. Por outro lado, tal como já referimos, a internet tem também a vertente de mass media, através das suas páginas World Wide Web de informação.

Pela primeira vez existe um media que engloba diferentes tipos de comunicação que pode ser ou não considerado um mass media, em relação ao uso que fazemos dele. Por outro lado, veio impulsionar um novo modelo de comunicação, para além dos que já existem (Cardoso 2007). Segundo Gustavo Cardoso, o primeiro modelo é a comunicação “interpessoal”, que acontece entre duas pessoas ou várias pessoas dentro de um grupo, ou seja, uma transmissão bidireccional. O segundo modelo é o conhecido por “de um para muitos”. Aqui incluímos as transmissões que são feitas a partir de um indivíduo para uma audiência delimitada, um modelo bem enraizado nas nossas sociedades actuais. Por fim, de referir ainda o modelo de “comunicação de massa”, ou seja, quando uma mensagem é transmitida em larga escala e para um audiência que se espera ser bastante alargada, não se conhecendo à priori a sua real dimensão.

Gustavo Cardoso concorda com o surgimento de um novo modelo sugerido por Fausto Colombo, o modelo de “Comunicação Sintética” (Cardoso 2007). Esta denominação sugere que se trata de uma forma baseada numa rapidez derivada à utilização da linguagem de máquina, isto é, a comunicação ligada às tecnologias de informação. Por outro lado, “sintético” também pode clarificar a dimensão da imitação. A comunicação sintética tem a característica de querer imitar outros modelos, ao mesmo tempo que os transportam para as novas tecnologias de informação e comunicação.

Forma-se assim o que Gustavo Cardoso denomina de Comunicação Sintética em rede. O autor refere que esta nova forma de comunicar difere de modelos como a imprensa ou o broadcasting. No caso dos jornais, estes difundem a mensagem em massa utilizando a reprodução de cópias, que vão levar um determinado tempo entre a produção e a recepção por parte dos leitores (Cardoso 2007). Já o broadcasting trouxe a possibilidade de, pela primeira vez, transmitir uma mensagem em simultâneo para uma audiência muito alargada, para além de tornar possível entrar em casa dos consumidores sem limitações. Por outro lado, os públicos deixaram de receber textos e passaram a ter disponível uma programação, ou seja, um fluxo. Por fluxo, Gustavo Cardoso utiliza a definição de um discurso que não tem início, nem fim e que nunca pára, mesmo que o consumidor não o esteja a seguir.

Assim, a Comunicação Sintética em Rede surge como uma nova forma de relacionamento entre audiências e emissores, já que articula o que conhecemos por textos, fluxos e comunicação interpessoal (Cardoso 2007). É um novo modelo em que surge a internet como forma de abrir aos consumidores um pouco dos modelos anteriores, mas que torna a ligação entre produtor e consumidor mais estreita e que por vezes se transformam num só.

1.6. O ‘On’ e o ‘Off’ da internet

O surgimento da internet nem sempre foi pacífico. Aliás, o surgimento de uma nova tecnologia nunca o é. Basta relembrar a atitude que a AT&T teve com a apresentação da ideia de Paul Baran. Alguns críticos previam que a rede vinha destruir sectores da sociedade, isolar os utilizadores, modificar e prejudicar hábitos. O perigo do isolamento foi largamente debatido, principalmente em relação aos mais novos. As novas possibilidades que a rede trouxe podiam, dizia-se, fazer com que cada vez mais uma pessoa pudesse fazer tudo à frente do computador, deixando de lado as relações sociais. O medo do vício na net foi crescendo. Outra das críticas feitas a esta nova tecnologia passava pelo risco da facilidade de transmissão de conteúdos ilegais, tal como a pornografia.

A entrada de qualquer nova tecnologia sempre foi marcada pelo debate social e moral. Gustavo Cardoso recorda a divisão entre “Apocalípticos” e “Integrados”, de forma a analisar este debate. Quando uma nova tecnologia de informação e comunicação surge, os que apontam possíveis desequilíbrios e aspectos negativos da sua utilização são incluídos no primeiro conceito. Já os integrados sublinham os aspectos positivos e os pontos fortes que podem ajudar a sociedade. Neste caso, assistiu-se no início a uma omnipresença do discurso dos integrados.

Este debate aconteceu também em relação a outros media. O isolamento, por exemplo, foi apontado no caso do livro: quem lê, não participa em discussões. Da mesma forma, o surgimento do modelo de vídeo VHS levantou alertas sobre a pornografia.

No início da World Wide Web, a maioria dos comentadores considerava que a internet vinha modificar as sociedades para melhor (Cardoso 2007). Descreviam uma ferramenta que iria tornar o acesso à informação universal. Barry Wellman define três eras distintas na história da internet. A primeira, segundo o autor, foi marcada por esta visão utópica da entrada do novo media na sociedade, sem pensar nos constrangimentos em relação a estatuto ou mesmo na utilização no poder.

“A internet era vista como uma luz brilhante, mais brilhante que qualquer problema do dia-a-dia. Era uma tecnologia maravilhosa que iria trazer um novo rumo e transformar o mundo. A comunicação dominaria a internet, através de email, fóruns, mensagens instantâneas e grupos de chat. Tudo isto ia unir todos a todos, sem limites de tempo e espaço” (Wellman 2004:3)

Já na segunda etapa da internet, que começou por volta de 98, assiste-se a uma diminuição das ideias de que seria a melhor ferramenta para a sociedade. A chama começa a baixar de potência e entramos num período de análise e monitorização dos utilizadores (Wellman 2004).

“A internet continuou a ser uma coisa importante, mas não algo especial. Tornou-se uma utilidade para as massas e não apenas um brinquedo para os especialistas em computadores” (Wellman 2004: 4)

Alguns mitos começaram a cair. A ideia de que a internet ia destruir as relações sociais não foi provada. Barry Wellman refere o exemplo de Netville, uma localidade perto de Toronto, onde dois terços dos habitantes que utilizam a net e têm ligações muito rápidas sabiam três vezes mais os nomes dos vizinhos, em comparação com quem não estava online. Além disso, falavam com mais pessoas e visitavam 1,5 vezes mais as casas dos amigos. A mesma conclusão tem o relatório “Digital Future Project”, da University of Southern Califórnia. Em 2007, o documento referia que mais de um quinto dos que participavam em comunidades online, estiveram presentes em pelo menos uma actividade offline no último ano ligada ao grupo da internet. Por outro lado, dois terços dos participantes em causas sociais na net admitiam que não o teria feito se não fosse a ligação online, e mais de 43 por cento afirma que participa mais em movimentos sociais desde que pertence a estas comunidades virtuais.

1.7 “A Tecnologia é a Sociedade”

Tal como vimos a internet é uma ferramenta central na evolução da sociedade em rede, uma vez que é ela que torna possível acabar com os limites de tempo e espaço. A pergunta que muitos autores colocam é se foi a internet que moldou a sociedade e as mudanças a que temos assistido, ou se, por outro lado, foi a sociedade que adaptou a internet às suas necessidades. Esta questão leva-nos a outra que será levantada: o que levou à migração dos jornais para o online. Uma das perspectivas defendidas por alguns especialistas é conhecida por determinismo tecnológico. Esta teoria defende que o desenvolvimento da tecnologia é independente da sociedade, para além de a moldar, sem ter reciprocidade. Defensores mais extremos, a tecnologia existe fora da sociedade mas determina a construção social. No entanto, essa não é a opinião de autores como Manuel Castells ou Gustavo Cardoso. O primeiro é bastante directo em relação a esta questão:

“É claro que a tecnologia não determina a sociedade. Nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica (…) Na verdade, o dilema do determinismo tecnológico é, provavelmente, um problema infundado, uma vez que a tecnologia é a sociedade e a sociedade não pode ser compreendida ou representada sem as suas ferramentas tecnológicas” (Castells 2007:6)

Já Gustavo Cardoso defende que a “sociedade não é tecnológica, mas sim a forma como nos apropriamos dessa tecnologia sendo essa apropriação fruto de inúmeras possibilidades” (Cardoso 2007:52).

Manuel Castells usa o exemplo da evolução rápida das ferramentas de informação nos anos 70 nos EUA. O desenvolvimento destas tecnologias teve um forte apoio financeiro do exército norte-americano, principalmente quando falamos dos anos 40. No entanto, foi a cultura do espírito de inovação, da liberdade pessoal e organizacional que permitiu ser este o país a destacar-se no sector, nomeadamente a região da Califórnia. Talvez a explosão tecnológica não tivesse tido o mesmo caminho se não houvesse uma sociedade disponível para percorrer. De sublinhar que a procura de novos dispositivos personalizados com uma forte capacidade de interacção, ao lado de uma procura intensa de ferramentas não era uma mentalidade generalizada no mundo (Castells 2007). No entanto, ali foi possível.

Gustavo Cardoso realizou algumas entrevistas sobre sociedade e internet que se tornam úteis nesta fase da nossa análise. João Luís Sousa, na altura administrador do Sapo, o primeiro portal português, defendia que a apropriação da tecnologia não depende apenas de factores tecnológicos, mas também de outros como a dimensão financeira (Cardoso 2007). A mesma linha seguia Rui Marques, na altura director-geral do Grupo Fórum, empresa editora e prestadora de serviços, e presidente da Associação para a Promoção do Multimédia em Portugal. Para o responsável, a tecnologia tem um peso significativo na mudança, mas não é um factor determinante. Rui Marques acredita ainda que para existir um maior desenvolvimento, será preciso um aumento da largura de banda, claramente no domínio tecnológico, mas a par disso é indispensável existir alterações nas mentalidades, principalmente na interiorização da necessidade de pagamento pela informação disponível na internet, o que levaria a uma mudança nos modelos de negócios.

Outro entrevistado foi Carlos Campos Morais, na altura da Universidade Atlântica e também ex-membro do Conselho Superior da RCCN, a rede do sistema de ensino superior em Portugal. Na sua opinião, a internet é principalmente uma forma de potenciar as características dos humanos, tal como a gestão da informação e a produção de conhecimento (Cardoso 2007). Fica claro que para estes especialistas não existe um peso maior da tecnologia sobre a sociedade, ou seja, não é apenas a tecnologia que leva à mudança, uma vez que existem muitos outros factores também intervenientes. Desta forma, parece-nos que os pontos negativos que muitos apontam para a internet, ficam dependentes da forma como os utilizadores se apropriam da rede.

Existe um factor determinante neste processo de evolução tecnológica e social. Ainda que a tecnologia não determine obrigatoriamente a sociedade, esta última pode criar entraves significativos ao desenvolvimento tecnológico, através do Estado. Por outro lado, o peso do Estado é suficiente para, da mesma forma, acelerar a modernização das sociedades. A China é um dos exemplos claros da primeira situação.

A relação do gigante asiático com a internet tem sido alvo de atenção dos media nos últimos tempos. Principalmente a relação entre o Governo chinês e o Google. O Governo chinês sempre impôs limitações no uso da internet, nomeadamente em relação ao motor de busca e aos sites que este disponibiliza nas pesquisas. Depois de um ataque pirata à companhia, o Google acusou a própria China de ter sido a promotora do evento, uma vez que várias contas do Gmail foram assaltadas. Isto fez com que a empresa decidisse mudar o domínio .cn para Hong Kong. Desta forma, todos os cibernautas que quisessem ir ao Google.cn (China), eram direccionados para Hong Kong. A situação terminou em Junho de 2010.

“O Google vai deixar de utilizar os servidores de Hong Kong para alojar o domínio chinês. O anúncio foi feito no blog oficial da empresa, por David Drummond, Corporate Development and Chief Legal Officer. O responsável sublinha que o gigante norte-americano sempre ‘fez o melhor para garantir o acesso à informação’,  mas que essa tem sido uma tarefa difícil na China, principalmente ‘desde Janeiro’. Nessa altura, o Google transferiu o domínio .cn para Hong Kong”[7] (Carreira 2010)

A ideia foi tentar convencer o Governo chinês a renovar a licença comercial para operar no país. O plano resultou, pois o gigante norte-americano pôde continuar a fazer negócio naquele país. A política chinesa em relação à net foi publicada num documento chamado Livro Branco. Aí fica preto no branco como é que a China olha para a rede. Uma das frases que podemos destacar é o facto de ficar definido que a internet está “sob jurisdição e supervisão chinesa” (Carreira 2010). Estes são exemplos de limitações que um Estado pode colocar e fazer com que a evolução tecnológica perca força. Isto tem influência na vida social, já que apesar da tecnologia não determinar a mudança social, tem um impacto na sua evolução.[8]

Ao contrário, também é verdade que a tecnologia e o comércio não podiam ter desenvolvido a economia global apenas por si só. Foram as organizações internacionais, como o G7, que criaram mecanismos para a sociedade evoluir para os dias de hoje. A criação de instituições como o FMI e o Banco Mundial, a par da sua intervenção, são momentos em que os centros de poder organizaram as relações internacionais.

Outro papel do Estado nesta área pode estar relacionado com o enfoque que dá na educação em relação às novas tecnologias. Isto porque a falta de conhecimento da sua utilização, leva a uma alienação da população em relação a estas novas ferramentas. A exclusão é muitas vezes a causadora do fosso entre pobres e ricos. O tempo que leva um determinado povo a ter acesso ao poder da tecnologia, é um dos factores das grandes diferenças sociais que se vive no planeta. Os números são claros. Segundo Manuel Castells, em 1990, o G7 representava 90 por cento do fabrico de alta tecnologia, para além de reunir 80,4 por cento do poder de computação a nível internacional (Castells 2007).

Os registos históricos, destaca Manuel Castells, indicam que quanto mais os centros urbanos, produção e utilização das novas tecnologias estiverem interligados, mais rápidas são as transformações sociais, ao mesmo tempo que estas podem incentivar novas inovações (Castells 2007).

Muitas vezes as novas tecnologias são apontadas como a razão principal para as mudanças no domínio do trabalho. No entanto, não são estas novidades em si que estão na origem da reorganização laboral. Em vez disso, são as decisões de gestão, as relações industriais, os meios culturais e institucionais, para além das políticas governamentais, tal como já referimos, que dirigem as práticas no trabalho (Castells 2007). O impacto das tecnologias tem que ser analisado tendo em conta a interacção de um sistema social.

Se por um lado a difusão da internet nas próprias famílias fez com que a sociedade em rede tivesse um desenvolvimento exponencial, parece-nos correcto afirmar que a sociedade também moldou a internet e que o desenvolvimento da rede deve-se em muito aos seus utilizadores. Existem cada vez mais ferramentas para que sejam os próprios cibernautas a desenvolver a internet, nomeadamente através de aplicações, páginas pessoais, entre outras, ainda que estas não tenham uma visibilidade tão grande como as dos grandes grupos, como vamos ver mais à frente. Esta é, aliás, uma das grandes diferenças da internet face aos outros meios, como o jornal. Permite que seja o utilizador a moldar a utilização da mesma. Nesta realidade, surge a migração dos jornais para o online. Esta reflexão sobre se é a internet a moldar a sociedade ou vice-versa vai ser-nos útil para uma outra questão que iremos abordar. Porque é que os jornais tendem a migrar para a internet? Será uma questão financeira ou será uma quase obrigação para defender a marca que está no offline? Não estar no online será mais prejudicial, do que estar no online sem obter lucros?


[1] O Sputnik foi o primeiro satélite artificial da Terra, lançado em 4 de Outubro de 1957 pela antiga URSS.

[2] Site oficial da DARPA: http://www.darpa.mil/history.html; consultado a 12 de Maio de 2010.

[3] ARPA, Advanced Research Projects Agency; NET derivado da palavra network.

[4] http://www.forbes.com/2003/04/07/cz_vw_0407fasttech.html, consultado a 3 de Fevereiro de 2010

[5] Conferir a questão do determinismo tecnológico em  “A Tecnologia é a Sociedade”

[6] O ionline é apresentado no case study como sendo um agregador de conteúdos

[7] http://tvnet.sapo.pt/noticias/detalhes.php?id=59200; consultado a 30 de Junho de 2010

[8] http://tvnet.sapo.pt/noticias/video_detalhes.php?id=58624; vídeo consultado a 8 de Junho de 201