Posted by on Nov 30, 2010 in DISSERTAÇÃO | 0 comments

Maecenas ornare tortor

[dropcap1]1[/dropcap1]Aqui vamos falar de como se faz um bolo de chocolate. atenção aos gordos porque faz mal. mas faz bem ao espirito. eu tenho fome, agora queria um bolo de chocolate

Ponto 3 muito importante

[dropcap1]2[/dropcap1]Donec sed tellus eget sapien fringilla nonummy. Mauris a ante. Suspendisse quam sem, consequat at, commodo vitae, feugiat in, nunc. Morbi imperdiet augue quis tellus. Lorem ipsum dolor sit amet. Quisque aliquam. Donec faucibus.

Proin tincidunt, velit vel porta elementum, magna diam molestie sapien, non aliquet massa pede eu diam. Aliquam iaculis. Proin tincidunt, velit vel porta elementum, magna diam molestie sapien, non aliquet massa pede eu diam. Aliquam iaculis.

Maecenas ornare tortor

[dropcap1]3[/dropcap1]Donec sed tellus eget sapien fringilla nonummy. Mauris a ante. Suspendisse quam sem, consequat at, commodo vitae, feugiat in, nunc. Morbi imperdiet augue quis tellus. Lorem ipsum dolor sit amet. Quisque aliquam. Donec faucibus.

Proin tincidunt, velit vel porta elementum, magna diam molestie sapien, non aliquet massa pede eu diam. Aliquam iaculis. Proin tincidunt, velit vel porta elementum, magna diam molestie sapien, non aliquet massa pede eu diam. Aliquam iaculis.


Parte II | Impacto dos Media Digitais no Mercado da Informação

5. New Media, Mercado e Pluralismo da Informação

Numa acepção estrita, o conceito de pluralismo expressa a ideia de representação das diversas vozes numa sociedade que se pronunciam sobre o estado das coisas e as formas de governação. Nesta acepção, têm especial importância a actuação dos governos em funções e de representantes políticos instituídos, bem como a oposição, todos os partidos com poder conferido pelos cidadãos. O pluralismo político-partidário constitui o núcleo central da ideia de pluralismo, e é mais directamente observável.

No entanto, não são apenas os partidos que constituem o debate político, que recebe contributos de agentes extrapartidários, como autarquias, grupos profissionais, sindicatos, formações partidárias alternativas, instituições da sociedade civil, academia, empresas, etc.

Numa acepção mais lata de pluralismo, será preciso reconhecer que a sociedade não tem apenas forças políticas, mas também vozes sociais, económicas, culturais que aspiram a contribuir para um debate público que vá para além do estritamente político.

Por outro lado, como já referimos, a orientação mercantil dos media gera uma tensão com os interesses públicos dessas instituições, tão importantes no espaço público contemporâneo. Na verdade, a produção jornalística é governada por rotinas produtivas orientadas para a máxima eficiência e potenciação do lucro, o que leva a que a produção de informação esteja hoje muito dependente de fontes oficiais e de agências, a que a mesma informação circule em vários canais e meios, enquanto outra não tem espaço de visibilidade. Numa tentativa de atrair audiências, os media registam uma tendência para a tabloidização, obviamente em graus diferentes; para a personalização, privilégio do escândalo e da imagem.

Acredita-se, portanto, que o pluralismo é ameaçado num ambiente de concorrência, e mais ainda quando a estrutura de mercado é monopolista ou oligárquica. Trata-se de uma dimensão externa de pluralismo; a dimensão interna diz respeito à capacidade de objectividade dentro da própria empresa mediática (McQuail e Siune, 2002: 42).

A diversidade dos media pode ser medida pela existência de uma pluralidade de media autónomos e independentes; pela diversidade de tipos e conteúdos de media disponíveis; pelos segmentos da sociedade capazes de se dirigir ao público através dos media em sua propriedade ou da sua filiação; pela diversidade do conteúdo dos media em relação às funções dos media (informação/entretenimento), questões cobertas e grupos de audiências servidos (ibidem).

Quando o sistema mediático é governado por interesses comerciais, a orientação para segmentos de mercado mais rentáveis significa que os interesses, sejam de informação ou de entretenimento, dos menos favorecidos na sociedade não são considerados (Wernick, 1991; Schudson, 1984). A questão não é, por conseguinte, tanto a de saber o nível de concentração ou diversidade, mas avaliar o nível de comercialização dos media. Por isso, pode haver pluralismo numa estrutura de mercado com forte concentração (por exemplo, porque se consegue atingir uma economia de escala que permite produzir com mais qualidade e diversidade de conteúdos), da mesma forma que pode não existir o desejável grau de pluralismo numa estrutura de mercado caracterizada por baixos índices de concentração – não é uma questão linear, e os estudos não são conclusivos (McQuail e Siune, 2002).

Na coluna de opinião no Público de 7 de Outubro de 2008, o constitucionalista Vital Moreira defende a proposta legislativa de controlo da concentração dos media como medida necessária para garantir o pluralismo de informação e de opinião, essencial para uma democracia. Esse pluralismo pode, segundo o professor, ser ameaçado pela concentração de propriedade, «especialmente no caso da rádio e da televisão», e pela concentração de audiência ou circulação. Pode ler-se:

Numa democracia liberal, em que o Estado se deve limitar a deter um serviço público de rádio e de televisão sujeito a exigentes regras de independência de gestão e de pluralismo interno, o maior perigo para a liberdade e o pluralismo de informação e de opinião não vem do poder político, mas sim do poder económico e da concentração dos media, nas suas diversas dimensões.

Assim, a liberdade de concentração empresarial é sacrificável em nome da defesa do pluralismo mediático e da liberdade de informação e opinião, considera o constitucionalista.

Alguns operadores de media manifestaram-se contra essa proposta legislativa. O Grupo Renascença tem no seu site [1] um manifesto em que torna pública a sua oposição, porque considera que a sua quota de audiências somadas entre as várias rádios não é um ataque ao pluralismo, mas uma liberdade do público.

Rogério Santos, no seu blogue Indústrias Culturais[2], comenta a coluna de Vital Moreira, fazendo notar a omissão sobre a questão da regulação sobre a informação na Internet. Nessa esfera, bem como nos media em geral, a não concentração de media não significa necessariamente um pluralismo de informação e opinião, porque os princípios de operação dos media podem não ser os de serviço de interesse público, mas antes colocar como prioridade o lucro, a procura de audiências como garante da rentabilidade das empresas de media.

Na verdade, a questão da diversidade ou concentração nos media digitais é um «problema antigo com novas dimensões» (McQuail e Siune, 2002: 38). O pluralismo de informação e de opinião nos media digitais é difícil de aferir, mais do que nos outros, pela sua mudança tecnológica constante, que coloca desafios à legislação e à regulação.

5.1. Posicionamento

O impacto dos media digitais no mercado da informação não pode ser compreendido através de uma análise estrita desses meios, mas somente através de uma análise do sistema mediático geral e das relações entre os meios, prestando particular atenção à dinâmica que os novos media aportam ao sistema. Na verdade, vários autores chamam a atenção para o facto de que, na história dos media, cada ‘novo’ meio não se instalou e tornou os anteriores obsoletos, mas antes interagiu com eles e os complementou. Sonia Livingstone (2002) considera que o mesmo argumento tem validade para os – agora – novos meios, os meios digitais, no sentido em que não substituíram os meios que os antecediam, mas antes vieram introduzir-se no sistema mediático, forçando a sua recomposição. Daí que o impacto dos media digitais no mercado mediático como um todo seja o pano de fundo para a análise do seu impacto específico sobre o mercado da informação.

Por outro lado, é necessário reconhecer que o impacto dos media digitais no pluralismo da informação não pode ser explicado unicamente pela sua caracterização técnica. Isto é, a apropriação que é feita das possibilidades técnicas dos media digitais não é exaustiva, mas orientada por interesses dos agentes e pela reacção das audiências. Por exemplo, a interactividade e a participação que os media digitais possibilitam não começaram a ser potenciadas pelos agentes na sua plenitude logo desde o início, e daí que se marque a diferença entre a web 1.0 e 2.0. Por conseguinte, uma avaliação do impacto dos novos media na democracia ao nível da sua promoção, ou não, de um pluralismo de informação terá que confrontar as características dos meios digitais com a sua utilização presente, e com as formas de gestão das empresas de media digitais.

Além disso, embora tal não seja o enfoque desta investigação, será preciso abordar os media digitais reconhecendo, à semelhança de outros meios tradicionais, a tensão entre a informação e o entretenimento. Por um lado, de uma forma geral, considera-se que «a maioria de nós usa os media para fins de entretenimento, não para fins informativos ou políticos» (Croteau e Hoynes, 2003: 323). Por outro lado, será de acreditar que com os novos media essa situação seja ainda mais pronunciada, visto que aqueles oferecem formas de comunicação interpessoal novas. Como veremos, a informação é ela própria pressionada pelas lógicas e discursos do entretenimento, numa tendência que tende a esbater a distinção entre eles.

Assim, o contributo dos media para a informação e espaço público plenamente racional, como formulado em Jürgen Habermas, é algo que em larga medida existe apenas como ideal normativo. Na actualidade, essa construção de espaço público tende a ser desconstruído teoricamente, por exemplo entre as feministas. Estas viam-se, a si enquanto indivíduos e aos assuntos relativos às mulheres enquanto questões públicas e políticas, arredadas de um fórum público que privilegiava o estritamente racional e remetia o emocional para uma esfera separada e subalterna. Da mesma forma, os estudos culturais recuperaram alguma ideia de como as questões privadas e o entretenimento podem trazer questões públicas à visibilidade mediática. Assim, a vivência da política não coincide apenas com a esfera da informação mas pode, num ambiente de política e media contemporâneos, ser mobilizada também na esfera do entretenimento. Com efeito, «os media, frequentemente em formatos de entretenimento, podem oferecer-nos uma janela para a nossa história, as experiências dos outros, e as visões de pessoas com quem poderíamos nunca contactar» (Croteau e Hoynes, 2006: 30). Nesse sentido, a própria esfera do entretenimento tem uma responsabilidade social e cívica: «um espaço público vibrante é alimentado não só por produtos de media que são considerados “sérios” mas também por media que dão aos cidadãos pura diversão e oportunidade para satisfação» (ibidem: 35). Por outras palavras, «os media não precisam de ser explicitamente “informativos” para se envolverem em questões públicas» (ibidem).

Desta forma, embora o foco desta investigação seja o contributo dos media digitais para o pluralismo da informação, esse não pode deixar de ser contextualizado com a função social e democrática dos media de forma mais geral. Assim, quando focalizamos o estudo no impacto específico das tecnologias digitais de comunicação na informação no quadro da democracia e da sociedade portuguesas é por reconhecermos a centralidade desse núcleo, e não por ignorarmos dinâmicas mais vastas na esfera da comunicação e política.

Esse impacto não pode ser avaliado de forma definitiva, dado que as mudanças, quer na esfera dos media, quer na da política e sociedade, quer na das audiências, são constantes.

5.2. De volta ao básico: os media digitais

Comecemos então por sistematizar algumas das características tecnológicas dos media digitais, e suas implicações para a democracia em geral, e para o pluralismo da informação em particular.

O que há de ‘novo’ nos novos media (Silverstone in AAVV, 1999), ou seja, o que torna os media digitais fundamentalmente diferentes? Sonia Livingstone (in AAVV, 1999) compila as características dos media digitais que podem significar, tecnológica e comunicacionalmente, algo de novo para a sociedade. A posse e o contacto cada vez mais personalizados e individualizados dos sujeitos com as tecnologias de comunicação, aliados a uma crescente diversificação das formas e conteúdos (em função de estilos de vida); a convergência das formas e dos conteúdos informativos e a interactividade são características que os media tradicionais tinham vindo a construir, mas definitivamente instaladas pelos media digitais.

Os meios digitais são consumidos de forma mais individualizada, permitindo a cada indivíduo fazer o seu percurso e consumo de informação. Por outro lado, há espaço para uma organização dos formatos e dos conteúdos em função de interesses, que muitas vezes ultrapassam as fronteiras geográficas e agrupam pessoas de proveniências físicas diferentes em torno de estilos de vida, valores, ideologias comuns. Esta tendência está, portanto, relacionada com a escala global possibilitada pelos meios digitais. A convergência dos formatos possibilitada pelo digital (que reduz a códigos os conteúdos, quer sejam texto, imagem ou som), aliada à concentração e integração dos meios de comunicação em grupos mediáticos, faz com que cada vez mais os mesmos conteúdos circulem em diversas plataformas informativas ou mediáticas, ou que os próprios géneros sejam reinventados em função destas novas dinâmicas. Por último, a decisiva possibilidade do digital, a interactividade, reintroduz a audiência nos media pela porta grande.

Nestes media, portanto, a audiência pode participar mais activamente, de tal forma que vigora actualmente uma concepção de media digitais colaborativos, em que a audiência não é consumidor ou recipiente passivo, mas um colaborador activo e essencial do resultado final dos media.

No entanto, enveredaríamos por uma crença determinista se considerássemos os seus efeitos exclusivamente a partir das características inerentes dessa tecnologia. Há «limites do poder da tecnologia para determinar a mudança» e é preciso ter consciência do «grau em que as audiências são determinantes de acordo com necessidades e experiências sociais e culturais», refere McQuail (2002: 223). É disso que nos ocuparemos nas secções seguintes (2.2., 2.3. e 2.4.). Antes, observemos em traços gerais algumas implicações destes ‘novos’ media para a democracia.

5.3. Os media digitais e a democracia – a esperança da participação

As características tecnológicas dos media digitais constituem a base do seu potencial para a sociedade, mas é apenas na relação com esta que se define o grau de activação – ou, no limite, de adulteração – desse potencial. Na verdade, a tecnologia não determina o seu uso social, mas surge precisamente na sequência de necessidades identificadas na sociedade, embora isso não garanta a sua aplicação linear (Winston 2000).

Como dizem Croteau e Hoynes,

«Estas propriedades dos media digitais fornecem recursos para uma maior diversidade de media e dão mais poder de comunicação aos cidadãos do que às autoridades centrais. Se a história fosse só esta, poderíamos concordar com aqueles que comemoram os novos media como garantes de uma democracia renovada que dá poder aos cidadãos e revigora a participação na vida pública. (…) Os novos media podem conduzir à diversidade e participação, mas outras forças sociais podem conduzir à uniformidade e passividade» (2003: 323).

Os media têm vindo a assumir uma posição de quase monopólio do discurso público. Por outras palavras, as questões públicas são cada vez mais mediatizadas e os cidadãos não têm contacto directo com elas. Por outro lado, os mesmos media regem-se na sua maioria por uma lógica de mercado, gerando uma tensão entre os interesses públicos e privados a que os media devem responder segundo a sua função de instituição social.

Os media digitais, cuja diferença específica será sobretudo a de possibilitar e estimular uma participação individual, reacendem o sonho de uma democracia participativa. Se há a possibilidade de cada indivíduo se pronunciar sobre cada assunto que agita uma esfera pública, ou se as tecnologias digitais parecem possibilitar o contacto directo entre eleitos e eleitores, acredita-se que tal pode consolidar ou ressuscitar a democracia. Os novos media parecem também prometer à democracia um conhecimento (e controlo) absoluto sobre a audiência. O grande imponderável na cadeia dos media tornar-se-ia mais transparente e isso ofereceria também à democracia uma maior capacidade de conhecer os eleitores.

Pela ligação dos mais jovens à tecnologia, eles que parecem desafectados pela política, alguns acreditam que é precisamente nesse grupo que se pode encontrar um efeito positivo mais visível dos media digitais sobre a democracia (Loader, 2007). Outros, porém, têm sido mais cépticos neste debate sobre o impacto lato dos media digitais sobre a democracia. Se a mediatização da política é condicionada por questões comerciais inerentes ao funcionamento dos media, a regulação da propriedade dos media não garante, contudo, por si só o afastamento desses condicionalismos económicos dos media, e o pluralismo de informação e opinião por essa via, porque, ainda que o mercado de media esteja na mão de vários proprietários, não está garantida a diversidade política, social e cultural.

Com efeito, a personalização do contacto com os media e a diversificação ou segmentação dos produtos mediáticos podem significar uma crescente fragmentação da audiência. Na verdade, aliadas à privatização, internacionalização, comercialização e concentração que o sector dos media tem vindo a registar (McQuail e Siune, 2002: 1), essas características dos novos media podem agravar uma disseminação de nichos, ainda que estruturados numa escala global. A estruturação desses nichos não é orientada pela perspectiva dos indivíduos como cidadãos, mas como consumidores.

Ora, os media digitais não foram implementados numa lógica de cidadania ou política, mas numa lógica de mercado (ibidem) e, na verdade, tendem a acentuar tendências da gestão e da produção dos media que já faziam temer pelas implicações que teriam para o sistema democrático. A convergência permitida pelos media digitais é altamente conveniente para um sistema mediático governado pela procura da eficiência, mas pode significar uma redução considerável de pluralismo, apesar de – e precisamente por – haver vários meios, mas com mensagens semelhantes. Por outras palavras, pode haver, em vários canais, mais do mesmo.

Por outro lado, a Internet é sobretudo um push medium, ou seja, um meio em que cada um procura o que lhe interessa à partida (Bennett, 2003): por isso, não são os meios digitais sozinhos que reaproximarão os cidadãos afastados da política, mas em larga medida tenderão a envolver mais aqueles que já estão convencidos e mobilizados.

Além disso, a distribuição dos media digitais condiciona fortemente o impacto que ela possa ter na democracia, podendo mesmo acreditar que pode agravar os fossos já existentes na sociedade (McQuail e Siune, 2002: 178). «Os estudos actuais sugerem que o utilizador médio de Internet tende a ter educação, altos rendimentos e é literado em computador, e provavelmente alguém que já tem mais formas de participação no processo político abertas para ele/ela que o cidadão comum» (ibidem: 78-79).

Ainda que os media digitais potenciem a participação dos cidadãos, há que distinguir a participação nos media e aquela que acontece através dos media (Carpentier e Cammaerts: 2007). A participação nos media não se traduz necessariamente numa participação na política através dos media; e ainda que se acreditasse nessa possibilidade, a participação política estaria refém dos condicionalismos dos próprios media.

No entanto, os media vivem da sua legitimidade social e, portanto, há razões para acreditar que procuram o máximo de diversidade e pluralismo (dentro das suas limitações) para garantirem também a sua credibilidade junto do público. Por conseguinte, uma sociedade em que as audiências tenham consciência do seu poder e consigam também contestar o poder dos media é essencial para conseguir um maior pluralismo. Por outras palavras, nem tudo pode ser colocado sob as costas dos media: é necessária uma sociedade civil forte, ela própria plural, que consiga também superar e contrariar os condicionalismos dos media.

Desta forma, parece ser premente analisar o potencial dos media digitais para a democracia de forma prudente, realista, sem demasiado optimismo mas também sem descartar a sua potencialidade à partida. É esse quadro de limites e possibilidades dos media digitais para o sistema democrático que pretendemos ajudar a traçar neste trabalho.

5.4. O alargamento do Espaço Público

Vivemos numa sociedade de informação e «a natureza da informação requer que se distinga entre a informação como conteúdo e a sua manifestação física» (Albright e Bates 2006: 423). De facto, é possível identificar uma variedade de formatos físicos, através dos quais o conteúdo informativo pode ser divulgado. É na sequência das inovações tecnológicas que têm vindo a dar-se nas últimas décadas que essa informação está disponível – independentemente do seu conteúdo – através de cada vez mais canais. Contudo, o facto de vivermos numa sociedade de informação, indubitavelmente, não significa necessariamente que vivamos numa sociedade mais informada.

A informação disponível é cada vez maior – a oferta da informação é superior à procura desta –, o que leva a que o consumidor tenha também mais dificuldade em filtrar esses conteúdos e registar aqueles que são verdadeiramente pertinentes. Todavia, numa era em que o controlo da informação e o acesso a esta são instrumentos de controlo – o agenda-setting, o framing e a sua influência no espaço público é uma das questões mais discutidas com relação ao poder social dos mass media – a generalização desse acesso e desse controlo coloca uma série de problemas. Os processos de democratização são impulsionados por uma série de novas tecnologias de comunicação que permitem a qualquer pessoa disponibilizar e aceder a conteúdos – informativos ou de entretenimento – a uma escala global. As ferramentas como a internet, novas formas de telecomunicações, bem como novas técnicas de broadcasting permitem um acesso generalizado à produção e distribuição de conteúdos.

Os media digitais oferecem maior flexibilidade, são mais criativos, a sua transmissão é mais rápida, quase instantânea, e as suas capacidades tecnológicas continuam a aumentar em termos de velocidade, habilidades e capacidades, enquanto que, por outro lado, os custos continuam a baixar. Nesse sentido, a atitude do consumidor face, por exemplo, à internet alterou-se igualmente à medida que se tornou claro que este serviço seria o método mais prático e rápido de obter todo o tipo de informação. Essa tomada de consciência conquistou não só o público, e o número de utilizadores aumenta gradualmente de ano para ano em todo o mundo, mas sobretudo as empresas, e são cada vez mais as empresas que disponibilizam conteúdos através da internet. Portugal não é excepção.

De todas as plataformas de media que disponibilizam ao consumidor informação, a internet é a aquela que mais interferiu nas estruturas internas das empresas de media. De facto, ao dissolver fronteiras de tempo e espaço, esta ferramenta alterou radicalmente a relação que se estabelece entre o momento da produção do conteúdo que é mediatizado e o momento da recepção desse conteúdo. E se esta relação se altera, tornando-se cada vez mais interactiva, então os perfis dos jornalistas alteram-se igualmente: passa a ser esperado que estes profissionais sejam polivalentes de modo a acompanharem as oscilações do mercado. Isto é, do mesmo modo que as empresas passam a querer disponibilizar conteúdos em várias plataformas de media, também passa a ser esperado dos profissionais desta área que adquiram cada vez mais competências multimédia.

Essencialmente a internet é um espaço e um media intangível que disponibiliza todo o tipo de conteúdos. Contudo, é um media diferente de todos aqueles que a precederam, caracterizam-na: a sua flexibilidade e imediatismo na disponibilização da informação, a sua interactividade promovida entre emissores e receptores do conteúdo mediatizado e a sua permanência. De facto, o envolvimento do consumidor com o processo de mediação é maior. A internet é, por definição, interactiva: «Enquanto que a escolha nos jornais se limita a páginas e manchetes, as opções na web podem estar nos próprios artigos e páginas, através da utilização de hyperlinks» (Stovall, 2004: 11).

Nesse sentido, estabelece-se entre o consumidor e a empresa de media uma relação recíproca de comunicação, na qual ambos procuram avaliar-se, através de técnicas como fóruns, e-mail, questionários imediatos, grupos de discussão e chats online. Do ponto de vista das empresas de media, estas novas técnicas avançam a possibilidade de avaliação do impacto da sua empresa em contexto. Adicionalmente, a permanência da informação por tempo ilimitado permite não só a duplicação dos dados como também o seu retorno. Assim, os jornalistas podem interligar acontecimentos a outros similares que sucederam antes, contextualizando-os e enriquecendo a informação.

Porque o acesso do consumidor a essa informação é um acesso dinâmico, é o próprio que vai de encontro à informação que pretende, o consumidor pode escolher o tipo de texto ou combinar vários textos. Essa é uma mais-valia da internet com relação às televisões ou à rádio. Embora as três possam, de facto, permitir o acesso a informação imediata a tempo real, apenas a internet pode apresentar os acontecimentos em vários formatos e perspectivas. E apesar da informação poder ser publicada de uma forma imediata, antes da sua publicação, a informação passa por um processo de edição, ao contrário do que aconteceria num directo televisivo.

A discussão sobre as novas tecnologias digitais e os seus efeitos agravou-se porque estas geraram novas necessidades no consumidor, despoletando uma mudança de paradigma e uma alteração nas expectativas do consumidor. Estas alterações de ordem cultural têm consequências directas e práticas nas estruturas das empresas de media. A primeira alteração que a emergência e o desenvolvimento destas tecnologias trouxe foi a alteração da percepção da noção de tempo na relação que se estabelece entre os media e o consumidor do produto. Através do uso das novas tecnologias – a internet disponibiliza todo o tipo de conteúdos – a necessidade do consumidor é de imediatismo no acesso à informação.

Consequentemente, as empresas de media vêm-se não só obrigadas a dar resposta imediata a essa necessidade, entretanto gerada, mas sobretudo de se apresentar como uma empresa multimédia, capaz de apresentar conteúdos em diversos formatos e, consequentemente, abranger vários tipos de público, induzindo por isso uma maior fasquia de audiências. Nesse sentido, frequentemente uma empresa de media é detentora de mais do que um formato tendo, por exemplo, jornais, revistas, televisões, rádios. O mesmo órgão de comunicação social – detido por uma empresa de media – frequentemente apresenta mais do que um formato: um jornal que disponibiliza uma versão online, uma rádio com emissão online, uma televisão com um site de internet.

A tecnologia digital deu origem a novos media que se baseiam em técnicas, atitudes e conhecimentos completamente distintos daqueles que caracterizavam e definiam os media tradicionais. O interseccionismo dos media tradicionais com os novos media, por um lado, na estrutura interna da empresa e, por outro lado, no produto final oferecido ao consumidor, marca uma tendência transversal a todos os sectores da indústria dos media, independentemente do facto da sua acção principal estar relacionada com o mercado da informação, do entretenimento ou das telecomunicações. De todas as tecnologias digitais que se impuseram no mercado e que persistem nesse sentido, nos últimos anos, a internet tem vindo a ser considerada como o novo media por excelência. É-o porque a caracterizam duas particularidades que a destacam face aos restantes media no contexto actual (tradicionais ou não): a internet não só é uma rede global de comunicação, como também a maior parte dos seus serviços são disponibilizados de forma gratuita. Estas características oferecem novas realidades a três tipos de protagonistas da actividade:

a)      Aos profissionais de media;

b)      Aos consumidores de media;

c)      Aos gestores/directores das empresas de media.

Em primeiro lugar, interessa compreender que a internet gerou uma certa promiscuidade em relação a estas distinções. Ao facilitar o aparecimento de sociedades unipessoais, os profissionais de media acumulam muitas vezes funções que originariamente, com relação aos media tradicionais, estariam separadas. Paralelamente, ao imiscuir o cidadão comum no próprio acto da produção de conteúdos a ser disponibilizados a um público de larga escala através de um determinado meio de comunicação social – o fenómeno do jornalismo de cidadão –, a relação entre o consumidor e o jornalista torna-se problemática.

Ao mesmo tempo que a acção do jornalista está cada vez mais condicionada pelas escolhas e necessidades do público alvo – as notícias pensadas do ponto de vista da recepção – e a relação deste com o seu público é cada vez mais interactiva, a internet permite que os papéis se invertam e que o consumidor assuma o papel tradicionalmente atribuído ao jornalista. Associada à web está a liberalização da informação.

Em segundo lugar, a internet alterou os hábitos e rotinas de trabalho dos jornalistas. Por um lado, facilitou o trabalho de pesquisa inerente ao jornalismo de investigação. Ao agrupar todo o tipo de informação no mesmo lugar, poupa tempo ao jornalista e permite-lhe ainda trabalhar essa informação directamente no computador. O armazenamento da informação num computador e a possibilidade de este estar ligado à internet facilitam ainda a disponibilização dos conteúdos trabalhados. Por outro lado, a internet e as novas tecnologias facilitam a comunicação interna nas empresas de media, uma vez que é possível que todos os trabalhadores – através dos seus computadores – estejam ligados na mesma rede, independentemente do local onde este computador esteja (meios com cobertura nacional podem ter as redes internas operativas nas várias redacções que têm no país).

5.5. Os media digitais no mercado da informação

Reconhecendo, à partida, que, «apesar de a Internet ter certamente aberto o acesso aos media de massas, as forças de mercado irão constranger bastante o vasto potencial tecnológico dos novos media» (Croteau e Hoynes 2003: 330), ocupar-nos-emos nesta secção de auscultar essas forças do mercado de informação.

No início da Internet, pensou-se que os baixos custos de distribuição dos conteúdos, para uma escala potencialmente global, com proporcional angariação de investimento publicitário, poderiam significar operações de media proveitosas e bem sucedidas. No entanto, como aconteceu com a Internet de forma mais geral, depois de um entusiasmo inicial, houve readaptações, alguns projectos de informação online que não garantiram a sua viabilidade.

Depois dessa fase, compreendeu-se que os conteúdos jornalísticos não poderiam simplesmente ser transpostos do meio clássico para o online, mas que teria que se tirar partido da convergência das linguagens e da interactividade que o digital permitia. Na reformulação do espírito mais geral da web – a chamada 2.0 –, os projectos de informação implicavam baixos custos de distribuição, mas custos acrescidos de produção jornalística.

Embora a convergência digital signifique que os conteúdos são mais facilmente partilhados entre os vários meios, uma produção jornalística especificamente para o digital implica mais meios. Por exemplo, o site de informação de uma rádio tem som, mas tem também texto e pode passar a produzir vídeos e fotos para o site; da mesma forma, o site de um jornal inclui não só o texto e imagem produzidos para a versão impressa, mas pode passar a produzir vídeo e montagens para o site.

Mais ainda, pela possibilidade de distribuição ilimitada, os sites de informação permitem não só incluir outro tipo de informação além das clássicas secções informativas, como ainda disponibilizar conteúdos específicos, como blogues alojados no site, criar micro-sites sobre temas específicos (ecologia, cultura, etc) ou oferecer serviços aos utilizadores.

5.5.1. O mercado da informação generalista na Internet em Portugal

Esta secção ocupa-se de traçar um panorama do mercado de informação online na actualidade em Portugal. Centramo-nos nos sites de informação generalistas nacionais, excluindo os sites de informação especializada e os de informação regional ou local, dado que o nosso propósito é exploratório e não exaustivo.

A maioria dos sites de informação generalista são ligados a grupos de media que operam nos media tradicionais, criando sites para marcas de jornais, revistas, rádio e televisão (tabela 5.1). Alguns detêm mesmo portais de informação que utilizam informação de outros sites do grupo: por exemplo, o portal Clix utiliza informação do Público.pt, Expresso.pt e Visão.pt; o Sapo utiliza informação dos sites de DN, Diário Digital, JN, Sol.

Tabela 5.1 – Sites de informação, consoante filiação a meios tradicionais ou exclusivamente existentes na Internet

Sites informação generalista nacional (de meios tradicionais) Exclusivamente na Internet
Imprensa

Imprensa paga

Imprensa gratuita

Revistas de informação

Rádio

Televisão

Portais

Sites de informação

Fonte: Elaboração própria

Estes sites utilizam as potencialidades dos media digitais de formas diferentes (tabela 5.2), complementando mais ou menos os media tradicionais. Enquanto alguns disponibilizam os conteúdos dos meios tradicionais, actualizam a informação e/ou produzem conteúdos específicos para os sites informativos, outros utilizam-nos apenas como “montra” para o meio tradicional, com acesso restrito. Alguns retiram proveito do interesse dos utilizadores em poder comentar e classificar a informação.

Tabela 5.2 – Sites de informação, conforme o tipo de acesso aos conteúdos

Site Acesso ao conteúdo de meios tradicionais Multimédia Comentários
www.correiomanha.pt Restrito Não Possível – sem registo
www.destak.pt Gratuito (versão pdf) Sim Possível – na parte blog
diariodigital.sapo.pt Não Impossível
diario.iol.pt Sim Possível – com supervisão
www.dn.sapo.pt Gratuito Não Impossível
www.expresso.pt Gratuito Sim Possível – com registo
www.globalnoticias.pt Gratuito (versão pdf) Não Impossível
www.jn.sapo.pt Gratuito Sim Possível – com registo
www.meiahora.pt Gratuito (versão pdf) Não Impossível
www.publico.pt Restrito (não inclui opinião) Sim Possível – com registo;

Impossível comentar Opinião

radioclube.clix.pt Gratuito Não Possível – sem registo
www.readmetro.com Gratuito (versão pdf) Não Impossível
www.rr.pt Gratuito Sim Possível – com supervisão
rtp.pt/noticias Gratuito Sim
www.sabado.xl.pt Restrito Não Possível – mas não publicado no site
www.semanario.pt Gratuito Não Possível – sem registo
noticias.sic.pt Gratuito Sim Impossível
www.sol.sapo.pt Gratuito Não Possível – com registo
www.tsf.pt Gratuito Sim Impossível
tvi.iol.pt/informacao Gratuito Sim Possível
www.visao.pt Restrito Sim Possível – sem registo
Portais
www.aeiou.pt Sim Possível – com registo
www.clix.pt Encaminha para outros sites do grupo
www.iol.pt Sim Possível – com supervisão
www.sapo.pt Encaminha para outros sites do grupo

Fonte: Elaboração própria

Há circuitos dentro destes sites que têm a ver com a inserção em grupos de media a que já nos referimos. Por isso, esta informação em meios digitais está, em primeiro lugar, ligada aos meios tradicionais, cujos operadores e grupos lançaram operações complementares no online, mas também – e por isso mesmo – ligada entre grupos de media, sinergias e cooperações.

5.6. Os media digitais no pluralismo da informação

Quanto aos potenciais benefícios e custos dos novos media, em matéria de pluralismo, a corrente dominante caracteriza-se por uma visão positiva quanto ao impacto dos novos media em matérias de pluralismo. Os defensores desta corrente destacam o papel dos novos media na (i) personalização da oferta de conteúdos mediáticos; (ii) no crescimento exponencial do número de vozes independentes; (iii) na criação de incentivos à diversificação de conteúdos; e (iv) na promoção da concorrência entre meios.

Personalização da oferta de conteúdos mediáticos

Uma das principais características dos novos media é o seu elevado grau de interactividade consubstanciado numa interacção bi-direccional entre produtores e consumidores de conteúdos mediáticos. Esta interactividade aliada à disponibilização de um manancial potencialmente ilimitado de conteúdos mediáticos (seja informação, opiniões, juízos de valor) vem facilitar a disponibilização de múltiplos pontos de vista e perspectivas sobre os temas do interesse dos consumidores. Por exemplo, o desenvolvimento de motores de busca cada vez mais poderosos e sofisticados (como por exemplo o Google ou o Yahoo!) vem reduzir de forma muito acentuada os custos de busca de informação (custos financeiros, custos de tempo), permitindo aos consumidores diversificar as suas fontes de informação, o que, em matéria de pluralismo, representa um avanço considerável face aos meios tradicionais.

Número de vozes independentes

O crescimento (potencialmente ilimitado) do número de vozes independentes é de facto uma das realidades criadas pelo advento dos novos meios de comunicação. A simultânea redução dos custos de difusão de informação e o aumento das capacidades de armazenamento e transmissão de informação, vieram reduzir de forma drástica (se não mesmo eliminar) as barreiras à entrada no sector dos media, permitindo a agentes atomísticos a actuação enquanto players do sector.

Deste ponto de vista, o advento dos novos media tem um impacto fortemente positivo em matéria de pluralismo: na era da proliferação do user-generated content, qualquer individuo que possua um computador com acesso à Internet pode transmitir informações e divulgar opiniões ou juízos de valor sobre qualquer tema do seu interesse. Dadas as capacidades tecnológicas da Internet em matéria de capacidade e velocidade de transmissão de informação, o advento dos novos media vem de certa forma revolucionar o sector em matéria de pluralismo, na medida em que parecem estar criadas as condições para que todas as opiniões tenham voz no mercado dos media.

Diversificação de conteúdos

Outro dos potenciais benefícios dos novos media em matéria de pluralismo corresponde à criação de incentivos para a aposta em estratégias de diversificação de conteúdos e aproveitamento de nichos de mercado, fomentando o pluralismo interno mesmo em mercados com elevados índices de concentração.

Note-se que este papel dos novos media na criação de incentivos à diversificação de conteúdos manifesta-se quer do lado da procura, quer do lado da oferta. Sob a óptica da oferta, os novos media criam incentivos para a investir em estratégias de diversificação da oferta de conteúdos, na medida em que os novos meios representam uma redução substancial dos custos marginais da disponibilização de conteúdos aos consumidores (Wildman e Ting (2008)).

Sob a óptica da procura, os novos media, dado o seu pendor altamente interactivo, estão a originar um fenómeno de fragmentação de audiências, que procuram conteúdos cada vez mais especializados, em linha com as especificidades das suas preferências. Assim, apesar dos novos media terem um âmbito inquestionavelmente global, o fenómeno da fragmentação de audiências vem tornar inviáveis as estratégias de diferenciação mínima/audiência máxima, requerendo a aposta em estratégias de diversificação de conteúdos, que contribuem positivamente para o pluralismo nos media.

Dinamização da concorrência entre meios

Enquanto que no caso dos meios tradicionais, as fronteiras entre os meios estavam perfeitamente delimitadas, com o advento dos novos meios e o inerente processo de convergência, esta realidade está (e continuará) a alterar-se, verificando-se que as fronteiras entre os diferentes meios e formas de comunicação são muito ténues ou até inexistentes. Com o advento dos novos meios, os conteúdos mediáticos passam a ser mais homogéneos, assentando num mix de texto, gráficos, imagem, som e vídeo.

Deste modo, existe um considerável grau de substituibilidade entre os novos meios de comunicação (sites noticiosos, blogs, fóruns, Youtube, etc.), o que dinamiza a concorrência entre estes meios. Por outro lado, o advento dos novos media vem criar novas realidades em matéria de concorrência, na medida em que a redução (ou quase eliminação de barreiras à entrada) permite a co-existência de agentes atomísticos e grupos colossais nos mesmos mercados, o que também vem criar uma nova dinâmica em matéria de concorrência.

Esta dinamização da concorrência pode ter efeitos bastante benéficos em matéria de pluralismo de ideias, na medida em que fomenta estratégias de amplificação da range de conteúdos disponibilizados pelos players do sector. É no contexto desta visão optimista, que muitas vozes vêem manifestar a esperança colocada nos novos media enquanto dinamizadores do pluralismo de informação. Por exemplo, no documento de trabalho da Comissão Europeia sobre o pluralismo nos Estados Membros da UE, pode ler-se “hence even if it is still too early to draw any conclusions in relation to concentration and  pluralism, one can already argue that theoretically internet  seem promising for pluralism”.

No entanto, esta visão optimista do impacto dos novos media no pluralismo de informação está longe de reunir consenso. Mesmo de um ponto de vista estritamente teórico, os efeitos do advento dos novos media em matéria de pluralismo não se limitam aos benefícios anteriormente elencados, verificando-se igualmente efeitos menos favoráveis. As correntes mais cépticas consideram que as potencialidades tecnológicas dos novos media em matéria de interactividade e expansão do número de vozes independentes acabam por não se materializar num acréscimo real em matéria de pluralismo.

Por um lado, estas correntes chamam a atenção para o fenómeno da uniformização de conteúdos em resultado da generalização do recurso ao outsourcing da recolha de informação (com as agências noticiosas a assumirem uma posição cada vez mais relevante, que poderá ser utilizada para criar barreiras no acesso à informação).

Por outro lado, em muitos mercados de media verifica-se que os players que dominavam os meios tradicionais, assumem um papel igualmente relevante no sector dos novos media (ou, em alternativa, foram substituídos por outros players de natureza semelhante), impossibilitando a concretização dos benefícios teoricamente associados aos novos media (na medida em que as vozes com influência acabam por ser as mesmas vozes de sempre).

Os defensores desta perspectiva salientam também o problema do excesso de conteúdos disponibilizados na Internet, argumentando que os consumidores, perante o manancial de informação à sua disposição, são obrigados a eleger critérios de selecção de informação, à luz dos quais os players mais atomísticos tendem a ser preteridos em detrimento dos players de maior dimensão. Inclusivamente, estes players poderão utilizar em proveito próprio as características interactivas dos novos media, por exemplo através do controlo dos resultados dos motores de busca de forma a manipular as fontes de informação à disposição dos consumidores.

Consequentemente, à luz desta visão, o aumento substancial do número de vozes independentes acaba por não ter um impacto real em termos de pluralismo, pois apesar de independentes, estas novas vozes revelam-se pouco influentes. Algumas vozes mais cépticas questionam também em que medida o advento dos novos media se virá a materializar numa estratégia activa de personalização e diversificação dos conteúdos mediáticos oferecidos pelos players mais influentes no sector. A adopção de estratégias de diversificação de conteúdos mediáticos requer a realização de avultados investimentos e a redefinição dos orçamentos de programação. Não obstante, os orçamentos não são ilimitados e estão sujeitos a restrições financeiras, que poderão limitar a extensão (ou até a adopção) das políticas de diversificação da oferta mediática[3].

As vozes mais pessimistas chegam mesmo a argumentar que a consolidação dos novos media se virá a consubstanciar num défice de pluralismo, na medida em que estes novos meios facilitam a observância de um processo de concentração à escala mundial, com consequências muito nefastas para a difusão de informação de carácter local/ regional, fundamental para o bom funcionamento de qualquer sociedade plural e democrática.

Neste contexto, a avaliação teórica do impacto dos media no pluralismo de informação constitui uma tarefa extremamente difícil, desde logo porque o advento dos novos media e o processo de convergência ainda estão a decorrer, subsistindo muitas incertezas quanto ao futuro.

Tendo em consideração a informação actualmente disponível, a tabela seguinte resume os principais argumentos em confronto no importantíssimo debate teórico sobre os efeitos dos novos media em matéria de pluralismo de informação.

Tabela 5.3 – Impacto dos novos media no pluralismo de informação: prós e contras

Prós Contras
Personalização de conteúdos Outsourcing e uniformização de conteúdos
Aumento do número de vozes independentes Peso negligenciável da maioria das vozes independentes
Diversificação de conteúdos Manipulação da informação e excesso de conteúdos
Dinamização da concorrência intra-meios de nova geração Concentração à escala mundial

Apesar de ainda existir algum grau de incerteza quanto à configuração dos futuros mercados de media, à luz da informação actualmente existente, a perspectiva optimista tende a prevalecer sobre a perspectiva pessimista e são mais aqueles que acreditam que os novos meios venham a ter uma contribuição positiva para o pluralismo de ideias. No entanto, os aspectos menos positivos desta nova realidade não podem ser ignorados, devendo ser analisados em profundidade, de forma a permitir criar um quadro regulatório que minimize os seus efeitos.

A regulação do sector dos novos media e a promoção do pluralismo nos media constitui um dos maiores desafios encarados pelas autoridades competentes em matéria de media, justificando a realização de um estudo inteiramente dedicado a esta questão.

5.6.1. Conteúdo de meios noticiosos tradicionais e respectivos sites

No que toca à Internet, «pode haver mais canais de media, mas é preciso examinar o que esses canais estão a distribuir» (Croteau e Hoynes, 2006: 114). É disso que nos ocupamos em seguida, de forma exploratória e não representativa, procurando aflorar algumas questões sobre o contributo dos meios digitais para o pluralismo da informação.

Expresso / www.expresso.pt

  • O semanário Expresso é um semanário de referência, publicado aos Sábados. Fundado em 1973 por Francisco Pinto Balsemão, é líder de circulação nos semanários (dados APCT), mesmo depois da entrada no mercado do concorrente Sol.

A edição impressa é composta por vários cadernos, frequentemente renovados, constando actualmente do Caderno Principal; revista Única, Cartaz, suplementos de classificados, com conteúdos próprios, de emprego (Expresso Emprego), imobiliário (Expresso Imobiliário) e suplementos periódicos (Guia do Estudante, por exemplo).

Lido sobretudo pelas classes média-alta e alta (ver mais à frente neste trabalho dados sobre audiências), o jornal consegue angariar grandes receitas com a publicidade. Entre a lista de colunistas sobre política e economia estão João Duque, Miguel Sousa Tavares, Daniel Oliveira, João Pereira Coutinho, João Garcia, Manuela Ferreira Leite, António de Almeida, Luís Pedro Nunes, Miguel Monjardino, Luís Marques, Henrique Raposo, José Cutileiro, João Carlos Espada, António Pires de Lima, Ruben de Carvalho, António Pinto Leite, Daniel Bessa ou Saldanha Sanches. O perfil de professores universitário, economistas, dirigentes políticos, analistas internacionais, ressalta deste grupo, revelando uma esfera política de diferentes proveniências ideológicas, mas de uma classe economicamente privilegiada.

  • O site www.expresso.pt, em primeira instância, colmata o intervalo da publicação semanal do jornal, o que reserva para o site a lógica da actualidade, mas simultaneamente da disponibilidade da informação para conveniência do utilizador. Há também o enriquecimento com infografias animadas ou vídeos, ligação a micro-sites ou dossiers informativos, maior exploração da área de serviço ao leitor (guias), mas também a blogues, disponibilização das colunas de opinião com possibilidade de comentário. Tem áreas para colaboração dos leitores, com opiniões/comentários (Está Dito), Cartas dos Leitores e Cidadão Repórter (para que os leitores-utilizadores contribuam com notícias e reportagens baseadas em vídeo ou outros suportes).

A área multimédia apresenta galerias de fotografias e a Expresso TV, alimentada por produções próprias para o site, mas muitas vezes em ligação com a televisão do grupo do jornal, a SIC. Um excerto de uma entrevista importante, por exemplo, pode ser mostrada no site do Expresso, publicitada nos espaços de informação da SIC antes da saída do jornal impresso; ou pode haver chamadas para visitas ao site no próprio jornal.

Os comentários exigem o registo dos utilizadores, mas todo o conteúdo está acessível mesmo sem registo. Os utilizadores que mais participam podem vir a gerir os comentários de outros.

  • Em conclusão, Expresso e www.expresso.pt, papel e ecrã, complementam-se, fazendo necessárias ligações entre si, mas distinguem-se nos conteúdos oferecidos. Apelam a públicos distintos e reforçam o papel do semanário como espaço de análise e comentário, de grandes reportagens, em contraponto com o site, que é sobretudo o espaço de actualidade, mas também de repositório, e de possibilidade de envolver a audiência com o seu contributo para a opinião, para contribuir com os temas que importam na sua agenda. Num jornal com perfil de leitores e de colunistas sobretudo de classes do poder político, económico, intelectual, o site abre possibilidade para a participação de leitores de outras esferas.

Jornal de Notícias / www.jn.sapo.pt

  • O Jornal de Notícias é um diário que se considera estar situado entre o jornalismo de referência e o jornalismo popular. Com sede na cidade do Porto, o jornal mostra uma preocupação em representar as várias regiões do país.
  • O jn.sapo.pt sofreu uma reformulação recentemente: passou da disponibilização simples dos conteúdos do jornal impresso (modelo em que ainda está o site do companheiro do grupo editorial Diário de Notícias) para um funcionamento em torno do multimédia e da interactividade dos leitores (comentar, enviar, partilhar).

A mudança de paradigma nota-se, desde logo, na adaptação dos textos a uma lógica mais sectorizada, apresentando destaques e notícias mais curtas, com ligações para desenvolvimentos, actualizações ou outras perspectivas. Seguindo o espírito ‘regionalista’ da edição impressa, inclui uma zona para as notícias das várias regiões. Disponibiliza ainda as colunas de opinião.

Passou a fazer uso corrente de vídeos – disponíveis na Internet e produzidos pela própria redacção –, montagens de fotografias – e a área de multimédia está mesmo destacada no site. O site permite ainda organizar a informação por dossiers de actualidade (como as eleições norte-americanas), especiais (sobre cultura da rede, por exemplo), blogues de jornalistas do próprio JN, área de classificados e de serviços (metereologia, farmácias, trânsito, guia cultural, horóscopo). O site inclui ainda a secção do Cidadão Repórter, acolhendo contribuições de conteúdos dos utilizadores («notícias e fotografias»).

SIC / noticias.sic.pt

  • O canal de televisão SIC, inaugurado em 1992, foi o primeiro privado e independente em Portugal. Pertence ao Grupo Impresa, de Francisco Pinto Balsemão.

Orientado pela procura de audiências, os espaços informativos do canal aberto são o Primeiro Jornal (13h) e o Jornal da Noite (20h). As edições de véspera de fim-de-semana, feriados e fins-de-semana são mais longas, com formatos mais magazine e grandes reportagens (Perdidos e Achados, Reportagem Especial, Terra Alerta, Futuro Hoje, Nós por Cá, Grande Reportagem). É feita alguma ligação das emissões informativas na televisão ao site de informação, através dos rodapés e de um apelo directo à visita do site pelos apresentadores dos boletins noticiosos.

  • O site noticias.sic.pt, um sub-site do www.sic.pt, funciona como modo de actualização para a informação, entre as edições de informação emitidas na televisão, bem como uma disponibilização de alguns conteúdos que não chegam a entrar no tempo televisivo, mais limitado, ou para disponibilizar as notícias em tempo conveniente para os utilizadores.

Faz grande uso do multimédia, especialmente com vídeos e infografias. Aposta na personalização dos jornalistas da estação, com as suas fotos e alguns blogues individuais. A área Eurepórter recolhe as contribuições dos utilizadores/ telespectadores, com temas lançados pela redacção ou em temas sugeridos pelos próprios. Não permite, no entanto, participação dos utilizadores nas notícias, sem a parte de comentários, de partilha/envio ou de expressão de classificação das notícias.

RTP/ www.rtp.pt/noticias

  • O primeiro canal da televisão pública nacional, orientado pelas preocupações de serviço público, procura oferecer uma informação pluralista, bem como uma programação de entretenimento para diversos segmentos, indo ao encontro de um pluralismo político-partidário tanto quanto cultural e social.

  • O site www.rtp.pt/noticias, comum à rádio pública, é um site com bastante informação, sobre várias secções e com forte recurso ao multimédia, disponibilizando conteúdos da televisão e da rádio. Os destaques permitem uma leitura sobre os temas mais importantes, mas são igualmente disponibilizadas outras informações na agenda do dia. Tem área de serviços, dossiers, podcasts.

O site não permite comentários, nem quantifica os mais vistos, não permite aos leitores partilhar ou enviar os conteúdos, nem a sua marcação de preferência. Assim, o site funciona como uma janela para a imensa informação que circula nos canais das televisão e rádio públicas, com possibilidade de acesso aos materiais na íntegra e em momentos mais convenientes para os utilizadores, mas não potencia a participação dos utilizadores.

TSF/ www.tsf.pt

  • A TSF é uma rádio de notícias privada, actualmente detida pelo grupo Controlinveste. O seu cariz informativo é marcado pela emissão de noticiários de meia em meia hora, mas também pela realização de rubricas de entrevistas, programas de opinião e pelo fórum dos ouvintes.

  • O site www.tsf.pt, reformulado recentemente, expande a possibilidade de a rádio comunicar não só através do som, mas também da imagem (sobretudo fotográfica – Galerias); permite ir ao encontro dos ouvintes com a disponibilização dos conteúdos em podcasts. Inclui áreas de dossiers informativos. No entanto, o site não permite comentários, e a interactividade que permite é a de partilhar ou enviar os conteúdos; regista as notícias mais vistas.

Análise crítica

De alguma forma, esta análise breve permite extrair, se não conclusões, algumas ideias sobre o papel dos media digitais por confronto com os media tradicionais:

  • Há várias velocidades da penetração da lógica interactiva e multimédia do digital nos sites informativos;
  • Podemos observar o imenso espaço para a diversidade de informações que deriva de sites bem estruturados, que permitem encontrar a informação que cada utilizador precisa e procura, mas ao mesmo tempo que os sites mostram aquilo que é mais importante. Ou seja, a hierarquização editorial da informação continua a ser importante, a par da disponibilização de uma quantidade muito grande de informação, para conveniência ou maior actualização;
  • A possibilidade de interagir com os conteúdos, comentando, partilhando, recomendando, classificando, não é uma questão acessória, mas contribui para um diálogo sobre os temas na agenda. O efeito de contestar e influenciar a agenda é mais difícil, embora alguns sites o permitam através das áreas do Cidadão-repórter;
  • O caso da imprensa é diferente da televisão ou da rádio, no sentido em que o primeiro é pago no meio tradicional, enquanto nos restantes é gratuito; assim, o site de Internet pode possibilitar o acesso a novos públicos que não comprariam o jornal;

Sublinhamos uma vez mais a replicação, na estrutura dos media digitais, dos media que os antecederam. Dedicar-nos-emos, no próximo ponto, ao impacto dos meios digitais na opinião, através de um confronto com o espaço que lhe é dedicado nos meios tradicionais.

5.6.2. Breve apresentação de espaços de opinião nos meios tradicionais

Esta apresentação refere-se à actualidade, novamente de forma exploratória, para dar conta de alguns traços gerais do quadro de opinião que tem lugar no espaço/tempo dos media tradicionais.

5.6.2.1. Televisão

Televisão hertziana

RTP1

  • As Escolhas de Marcelo – entrevista a Marcelo Rebelo de Sousa, PSD;
  • Notas Soltas – entrevista a António Vitorino, PS;
  • Corredor do Poder – um representante de cada um dos cinco partidos com assento parlamentar: Ana Drago, Margarida Botelho, Nuno Melo, Marcos Perestrello e Marco António Costa;
  • Prós e Contras – «É uma janela aberta sobre a sociedade portuguesa, respeitando a pluralidade de opiniões, e a representação democrática, mas fora da lógica das organizações partidárias», in www.rtp.pt.

RTP2

  • Eurodeputados – um representante dos diferentes partidos políticos no Parlamento Europeu;
  • Parlamento – um representante de cada um dos cinco partidos com assento parlamentar.
  • Diga Lá Excelência – não sendo programa de entrevista estritamente política, a maioria dos convidados são políticos; programa de parceria RTP2, Público e Rádio Renascença.

SIC

  • Jornal da Noite – às 5as-feiras, inclui um painel de debate entre Francisco Moita Flores, Rogério Alves e José Gameiro.

TVI

  • Jornal Nacional – inclui entrevistas aos comentadores Miguel Sousa Tavares (5as-feiras), Vasco Pulido Valente (6as-feiras) e António Perez Metelo (3as-feiras);

Televisão por cabo

RTP N

  • Pontos de Vista («participação de convidados pontuais, políticos, economistas, jornalistas, juristas, sindicalistas, consoante o tema em causa» in www.rtp.pt)

SIC Notícias

  • Edição da Noite (debate entre dois convidados, rotativos, representantes de partidos de esquerda e direita);
  • Quadratura do Círculo – debate entre Pacheco Pereira (PSD), Lobo Xavier (CDS-PP) e António Costa (PS).

5.6.2.2. Rádio

RDP – Antena 1

  • Conselho Superior – debate de 2ª a 6ª com José Miguel Júdice (PSD), Bagão Félix (PP), Maria de Belém (PS), Octávio Teixeira (PCP) e José Manuel Pureza (BE);
  • Pano para Mangas – crónica diária de João Gobern, «um olhar pela actualidade de quem está fora dos centros de decisão» (in www.rtp.pt);
  • Visão Global – programa semanal com retrospectiva dos temas da actualidade, com comentário de Paulo Sande (director do Gabinete do Parlamento Europeu) e José Cutileiro (embaixador).

Rádio Clube Português

  • Olhos nos Olhos – programa que coloca em confronto duas personalidades convidadas;
  • Janela Aberta – programa de debate entre bloggers Pedro Adão e Silva (http://ocanhoto.blogspot.com) e Pedro Marques Lopes (http://revista-atlantico.blogspot.com, centro-direita).

Rádio Renascença

  • Falar Claro – programa semanal de uma hora num debate entre Vera Jardim (PS) e Nuno Morais Sarmento (PSD), moderado por Pedro Magalhães;
  • A 3 Dimensões – às terças feiras, Francisco Sarsfield Cabral, director de informação da rádio, conversa com D. José Policarpo (Cardeal Patriarca de Lisboa), Jorge Sampaio (PS, antigo Presidente da República) e Francisco Pinto Balsemão (PSD);

TSF

  • Na Linha da Frente – comentário da actualidade, cada dia por um dos representantes dos partidos com assento parlamentar: Pedro Santana Lopes (PSD), Carlos Carvalhas (PCP), António Pires de Lima (PP), António Vitorino (PS) e Joana Amaral Dias (BE);
  • Economia Dia-a-Dia – comentário de 2ª a 6ª de António Perez Metelo sobre economia;
  • O Mundo num Minuto – comentário de política internacional, de 2ª a 6ª feira, por Miguel Monjardino e João Carlos Barradas;

5.6.2.3. Imprensa

Correio da Manhã

Tem entre os seus colunistas Teresa Caeiro (CDS-PP), Carlos Abreu Amorim (professor universitário), Francisco José Viegas (escritor), Rui Rangel (juiz), Paula Teixeira da Cruz (PSD), Joana Amaral Dias (BE), José Medeiros Ferreira (PS), Emídio Rangel, Carlos Zorrinho (PS), Fernanda Palma (professora universitária), Loureiro dos Santos (general).

Diário de Notícias

Ferreira Fernandes, Pedro Lomba (professor universitário, centro-direita), Maria José Nogueira Pinto (jurista, CDS-PP, Provedora Santa Casa da Misericórdia), Vasco Graça Moura (escritor), Baptista-Bastos (escritor), Adriano Moreira (professor universitário), Nuno Brederode Santos (jurista), Manuel Maria Carrilho (PS), Bártolo Paiva Campos (professor universitário), Anselmo Borges (padre e professor), Alberto Gonçalves (sociólogo), entre outros.

Expresso

Como referido na análise do jornal e sua página online, a lista de colunistas é vasta e procura representar os vários partidos do espectro político-partidário e de outras proveniências da sociedade e cultura.

Jornal de Notícias

Os colunistas deste jornal são Alice Vieira (escritora), Nuno Rogeiro (analista internacional), Mário Crespo (jornalista), Paquete de Oliveira (professor universitário, Provedor do Telespectador RTP), Elisa Ferreira (PS), Manuel Serrão (empresário), Honório Novo (PCP), Mário Contumélias (professor universitário), Nuno Grande (professor universitário), Almeida e Sousa (professor universitário), Alberto Castro (professor universitário), Luís Portela (empresário), António Freitas Cruz (jornalista), Paulo Morais (PSD).

Público

Espaço Público – a lista de colunistas do Público é extensa, ocupando actualmente no jornal um lugar compilado no final. Dessa lista fazem parte, além de jornalistas com colunas próprias: Amílcar Correia, André Freire, António Barreto, Campos e Cunha, Carla Machado, Carlos Fiolhais, Catarina Portas, Constança Cunha e Sá, Daniel Sampaio, Desidério Murcho, Eduardo Cintra Torres, Esther Mucznik, Francisco Teixeira da Mota, Frei Bento Domingues, Graça Franco, Helena Matos, João Benard da Costa, Jorge Almeida Fernandes, José Diogo Quintela, José Eduardo Agualusa, José Miguel Júdice, José Pacheco Pereira, José Vítor Malheiras, Kalaf, Laurinda Alves, Manuel Carvalho, Miguel Gaspar, Paulo Moura, Paulo Varela Gomes, Pedro Magalhães, Pedro Mexia, Rui Moreira, Rui Ramos, Rui Tavares, Sarsfield Cabral, Vasco Pulido Valente e Vital Moreira. Dessa composição, destaca-se a diversidade política, cultural, social, religiosa e até etária. No entanto, nota-se também a predominância de professores universitários, de comentadores ou pessoas ligadas aos media, bem como alguns bloggers, e alguns antigos ocupantes de cargos políticos.

Sol

Tem como colunistas António Rebelo de Sousa (economista), Paulo Pinto de Albuquerque (professor universitário), Paulo Guinote (professor, blogger sobre educação), Cláudio Anaia (PS), Paula Teixeira da Cruz (PSD), Manuel João Ramos (professor universitário).

5.6.3. Apresentação de alguns dos principais blogues políticos

Neste ponto, seleccionamos alguns dos principais blogues políticos. Assim, situamo-nos na concepção de pluralismo político, deixando de fora os inúmeros espaços semelhantes na Internet dedicados a diversas correntes culturais e sociais. A fonte utilizada relativamente à métrica foi a do Blogómetro[4], sobre blogues de Portugal.

Abrupto

O blogue de José Pacheco Pereira, Abrupto, em http://abrupto.blogspot.com/, criado em Maio de 2003, contabiliza mais de seis milhões de visitas, numa média diária de cerca de 3000 visitas. É um dos blogues no topo da lista dos mais visitados em Portugal, e o blogue político mais visitado. Neste blogue, o professor e político comenta sobretudo a actualidade política e cultural, com recurso a notícias de outras fontes e a imagens, para as quais chama a atenção ou sobre as quais toma uma posição. Embora Pacheco Pereira tenha espaço de comentador político no programa radiofónico (TSF) e televisivo (SIC Notícias) «Quadratura do Círculo», em representação do Partido Social Democrata, e ter acesso regular como fonte de informação aos meios tradicionais, o seu blogue pessoal assegura-lhe a possibilidade de comentar os assuntos independentemente da agenda mediática e pública (embora a siga de perto, pode distanciar-se dela) e chegar mesmo a influenciá-la, através da repercussão nos meios clássicos.

Blasfémias

O Blasfémias (http://blasfemias.net/), de autoria colectiva de Carlos Abreu Amorim, Carlos Loureiro, Gabriel Silva, Helena Matos, João Caetano Dias, João Miranda, José Pedro Lopes Nunes, Luís Rocha e Pedro Froufe, é outro blogue, especialmente atento a assuntos de economia e política, e bastante colado à actualidade. Em menos de um ano de existência, conseguiu já ultrapassar os quatro milhões de visitas, por ser a continuação e fusão de blogues anteriores dos autores. Tem um posicionamento clara e assumidamente liberal e suscita acesas discussões, com participação dos utilizadores através dos comentários.

Arrastão

O blogue Arrastão (http://arrastao.org), de Daniel Oliveira, Pedro Sales e Pedro Vieira, é um blogue assumidamente posicionado como de esquerda, que apresenta uma média de 2700 visitas diárias. O blogue tem um tom satírico e humorístico, e apresenta textos de opinião, notícias da actualidade com comentários mais ou menos extensos, vídeos e imagens. Além de os autores manterem outros blogues e encaminharem os leitores para uma série de outros blogues de esquerda, Daniel Oliveira é colunista do jornal Expresso e comentador do programa “Eixo do Mal”. O blogue pretende animar uma esfera política e cultural de esquerda. Idênticas características tem o 5 Dias (http://5dias.net/) ou o Jugular (http://jugular.blogs.sapo.pt).

31 da Armada

Outro dos blogues mais visitados em Portugal é o 31 da Armada (http://31daarmada.blogs.sapo.pt), também colectivo. Dá uma forte atenção à política nacional e internacional, e está atento à informação e à opinião veiculadas nos meios clássicos, sobre as quais se emitem comentários no próprio blogue. Inclui também questões culturais e sociais mais gerais. Não tem um posicionamento ideológico marcado.

O Insurgente

O espírito crítico está marcado no título do blogue: o Insurgente (http://oinsurgente.org/, depois de alojado noutros sites) é mais um blogue de autoria colectiva. É assumidamente liberal.

Comentários

As preocupações de pluralismo são particularmente notórias no caso do serviço público, muito embora a atribuição de programas a comentadores apenas aos partidos Social e Democrata (As Escolhas de Marcelo) e Socialista (Notas Soltas) motive discussão por parte dos partidos sem essa representação e críticas por parte do regulador ERC e Parlamento. Nos canais privados de televisão, a selecção de comentadores é feita em função da notoriedade das personalidades, mais do que pela sua filiação partidária, e pela sua capacidade comunicativa, essencial para garantir as audiências.

De qualquer forma, o retrato é sobretudo centrado nos partidos e mesmo num ‘bloco central’; socialmente, privilegia as classes superiores, pela predominância de professores universitários; em termos de género, o predomínio masculino é evidente. Os programas de entrevistas (como Grande Entrevista-RTP1, Diga Lá Excelência-RTP2/DN/TSF, Discurso Directo-DN/TSF, Grande Entrevista-RCP, Politicamente-TSF, Cartas na Mesa-TVI) reforçam esta tendência, mas podem abrir possibilidade para a representação, ainda que pontual, de outras forças da sociedade. Na entrevista, contudo, ao contrário dos espaços de opinião, os temas são decididos pelo entrevistador/jornalista e não pela personalidade convidada.

Uma outra palavra para a participação dos leitores nos meios clássicos. Os espaços de fóruns são comuns, tanto na rádio como na televisão por cabo; a televisão e os jornais recebem comentários e notícias dos cidadãos comuns; a imprensa recebe as cartas dos leitores. No entanto, a participação dos cidadãos nos meios de informação clássicos é mais difícil, menos frequente e mais controlada do que nos meios digitais.

Esta participação ocorre não só através da possibilidade de comentar as notícias e artigos produzidos nos sites de informação, mas também na possibilidade de contribuir com conteúdos, produzidos pelos cidadãos, sobre os temas que os preocupam ou na ordem da agenda pública, dando a sua perspectiva pessoal.

Uma diferença fundamental entre os blogues e as colunas de opinião da imprensa é a extensão. No blogue também há crónicas com extensão considerável, mas muitos dos textos, sob a forma de posts, são curtos e normalmente apoiados em imagem, seja fotografia ou vídeo, ou em texto já existente. Estes factores levam a uma leitura mais imediata das mensagens do blogue do que das opiniões na imprensa.

Por outro lado, quando se comparam os blogues colectivos com painéis de comentário com preocupações de pluralismo como o Eixo do Mal, a Quadratura do Círculo ou Corredor do Poder, nota-se que os blogues não pretendem ser fóruns de discussão entre pessoas de diferentes posições ideológico-políticas, mas precisamente o contrário: agregadas em torno de posições convergentes, observam e comentam a realidade política, cultural e social em seu redor.

Por último, um comentário – talvez o mais fundamental desta realidade que é a formação de um espaço público nos media digitais – acerca do facto de os blogues com mais visitantes e mais dinâmica serem de figuras políticas com mediatização nos meios clássicos. Ou seja, não só têm voz na imprensa, televisão e rádio, como constroem na blogosfera um espaço discursivo distinto, mais livre da agenda pública mas que aspira precisamente a influenciá-la, mais personalizado mas simultaneamente a procurar mostrar a sua base social de apoio. A questão é que precisamente essa exposição mediática clássica é o ponto de partida da sua notoriedade nos meios digitais e, por isso, em larga medida, embora alargue o espectro de e o espaço dedicado a opiniões, elas são um reflexo dos meios clássicos.

Essa ligação próxima revela-se também na atenção que os bloggers políticos dedicam aos media, constantemente remetendo para eles, em forma de notícias ou opinião. Por isso, o espaço da blogosfera cria mais oportunidade para discussão de temas políticos, mas sobretudo entre pessoas de ideologia política comum, e sobretudo por pessoas com notoriedade mediática e voz nos meios clássicos. Pode, no entanto, aportar dinâmica ao espaço público e garantir mais pluralismo na medida em que dá mais voz a opiniões que poderiam não ter espaço/tempo nos limites dos media tradicionais; e por permitir que certas opiniões e vozes encontrem eco nos meios clássicos, sempre atentos aos movimentos da blogosfera, conferindo-lhes legitimidade social em troca de maior representatividade das opiniões circulantes na sociedade.

6. Os media digitais como produtos informativos complementares e substitutos

Da análise feita na secção anterior, ressalta a complementaridade que as empresas de media estabelecem entre as suas operações clássicas e digitais, em termos de informação. Também a nível de opinião, há uma forte ligação entre o espaço dos media clássicos e dos media digitais.

Avaliar o impacto dos media digitais no pluralismo da informação leva-nos também a considerar de que forma as audiências reagem a estas tecnologias. Por outras palavras, a tecnologia não conta toda a História: «as preferências das audiências são outra forma de moderar o potencial impacto da tecnologia» (Croteau e Hoynes, 2003: 323). Neste ponto, dedicamo-nos a analisar em que medida são os sites informativos produtos complementares e/ou substitutos dos produtos informativos dos media tradicionais.

6.1. Contexto português

Portugal é um dos países da União Europeia onde o consumo de jornais é mais baixo (McQuail e Siune 2002). Esta situação pode ser explicada, por um lado, pela baixa literacia da população: os Censos de 2001 revelavam que havia ainda 9,0% da população portuguesa analfabeta [5]. A herança histórica da censura durante o regime ditatorial ainda se faz sentir, no sentido em que não houve espaço para a formação de uma esfera política pluralista nos media. Esta fraca implantação social da imprensa é reforçada pela pequena dimensão do País, que não permite ganhar suficiente massa crítica para agitar um espaço público sólido. O nível de preços dos jornais face ao custo de vida em Portugal, embora possa ser considerada uma falsa questão visto que outros consumos conseguiram implantar-se entre a população, ajudou a empurrar o discurso político sobretudo para a televisão, que se assume ainda como o principal meio na comunicação política.

Por outro lado, a tradição portuguesa é a de que os media não estejam filiados a partidos ou forças políticas, pelo que a sua construção editorial se baseia num princípio de objectividade e pluralismo. Sobretudo na imprensa tida como de referência, em que há preocupações normativas com um contributo para um espaço público plural, o espaço de opinião representa uma parte importante desse papel, como vimos anteriormente.

Esta despolitização tende a ser acentuada com a crescente influência da comercialização dos media (McQuail e Siune, 2002: 14) em Portugal, plenamente inseridos numa lógica de mercado e numa sociedade cada vez mais estruturada em torno do consumo. Embora se identifique a imprensa de referência com os jornais Expresso, Público e Diário de Notícias, as diferenças entre esta e a imprensa popular têm vindo a esbater-se, com uma adaptação para conteúdos mais próximos de revistas (que atraiam mais publicidade) e uma certa tendência para a tabloidização (privilégio da polémica, personalização, peso da imagem fotográfica).

Dados do Estudo de Recepção dos Meios de Comunicação Social, realizado pelo CIES-ISCTE para a Entidade Reguladora para a Comunicação Social[6], com inquérito representativo sobre consumo de media da população portuguesa, revelam, em primeiro lugar, que a televisão é predominante em todas as idades; em segundo lugar, e em relação ao que nos ocupa neste trabalho, os meios digitais são usados sobretudo por indivíduos jovens (70% da população até aos 30 anos; 42,2% da dos 31 aos 50 anos; 21% e 2,4% da população dos 51 aos 64 e maiores de 65, respectivamente).

Nesse estudo, concluía-se que o grupo etário que mais consome jornais é o dos 31 aos 50 anos (68,4%), seguido da população até aos 30 anos (61,4%) e diminuindo entre os grupos mais velhos (59,9% entre os indivíduos dos 51 aos 64 anos e 32,9%, nos maiores de 65).

6.2. Comparação das audiências dos meios noticiosos tradicionais e respectivos sites

Quanto a uma caracterização do consumo de media digitais, comecemos por analisar os dados sobre posse de computador e ligação à Internet entre a população portuguesa. Os últimos dados (figura 6.1) apontavam para 59% dos indivíduos com mais de 15 anos no continente com posse de computador em casa[7]. O mesmo estudo revelava ainda que era entre as classes alta, média-alta, média e média-baixa que se encontravam a maioria destes proprietários de computador. Na classe baixa, esta taxa descia para 20%..

Figura 6.1 – Lares onde existe computador com utilização, 2008

Nas diferenças entre género, o estudo do CIES/ERC a que já se aludiu refere que a utilização de internet é feita por 42,7% da população masculina e 33,8% da feminina. A diferença é significativa, mas ainda assim o contraste é mais marcado no consumo de jornais: 68,6% dos homens, contra apenas 47,8% das mulheres. As mulheres parecem preferir as revistas (47,8% das mulheres, 37,7% dos homens).

O acesso à Internet a partir do lar é um passo acrescido de desigualdade: em 2008, são já 94,2% das famílias de classe alta a possuir acesso a partir do lar, valor que vai descendo à medida que baixa a classe social, com a maior quebra da classe média baixa, quase nos 50%, que compara com os 14,1% verificados na classe baixa.

Figura 6.2 – Lares com acesso à Internet 2008

Entre as utilizações da Internet, é preciso ainda distinguir entre usos para comunicação pessoal e comunicação social – e dentro desta, entre entretenimento e informação – para observarmos a utilização dos media digitais. Ou seja, mesmo que haja muitas pessoas a aceder aos media digitais, não significa que todas as usem para procurar informação.

Os últimos dados da Marktest[8] apontavam para cerca de um milhão e meio de portugueses que consulta sites de jornais, revistas e de informação online, um número em crescimento, embora com variações conforme os meses. O mesmo estudo revela ainda que cada utilizador consulta estes sites numa média de 48 minutos (Setembro 2008).

Entre estes dados, estão não apenas os sites de informação generalista, mas também sites de informação especializada – e são precisamente esses que estão no topo da lista. «O Record online manteve a liderança dos sites de informação acedidos a partir de casa, com 420 mil utilizadores únicos, seguido do A Bola online, com 402 mil utilizadores únicos e do Notícias Sapo, com 336 mil utilizadores únicos». O Portal de notícias Sapo, o Público e o Jornal de Notícias figuravam no “top 5”.

Figura 6.3 – Utilizadores únicos sites informação Setembro 2008

Relativamente ao perfil de utilizadores de sites informativos, os dados da Marktest apontam para um maior peso dos utilizadores com idades entre 15 e 34 anos,  do sexo masculino e pertencentes às classes alta e média-alta (Figura 6.4).

Figura 6.4 – Perfil de Sites – Grupo Sonae.com

Fonte: in Anuário de Media & Publicidade – edição 2007, p. 273 – Marktest [9]. Inclui www.publico.pt e sub-sites

No estudo para a ERC referido acima, constata-se que a maioria dos indivíduos não consideram que a Internet substitua a leitura de jornais: 42,6% dos indivíduos até 30 anos, 55,6% dos de 31 a 50 anos, e 56,5% dos indivíduos entre 51 e 64 consideram que o digital não terá esse efeito sobre a imprensa. Por isso, apesar de terem públicos distintos – ou precisamente por isso – não se atribui ao digital a causa de erosão da imprensa.

Se compararmos a Internet com a televisão (embora as audiências da televisão não digam apenas respeito aos espaços informativos) através do exemplo da RTP e www.rtp.pt (Figuras 6.5 e 6.6), constatamos que a distribuição por género se inverte (na televisão, a maioria da audiência é feminina, enquanto na Internet, é masculina); a distribuição etária se desequilibra (na televisão é distribuída equitativamente, com acentuação nos maiores de 65, enquanto na Internet há uma concentração entre os 15 e 34, e um desaparecimento dos séniores); e uma inversão da distribuição em termos de classe (a televisão é mais vista por classes mais baixas, enquanto a Internet é mais utilizada por classes mais elevadas).

Figura 6.5 – Perfil de Canais – RTP1

Fonte: in Anuário de Media & Publicidade – edição 2007, p. 67 – Marktest.

Figura 6.6 – Perfil de Sites – Grupo RDP/RTP

Fonte: in Anuário de Media & Publicidade – edição 2007, p. 271 – Marktest. Inclui www.rtp.pt e sub-sites.

Assim, podemos avaliar o efeito de complementaridade e/ou substituição dos meios digitais em relação aos meios clássicos prestando particular atenção ao factor etário. Na verdade, as audiências dos meios digitais são sobretudo mais novas, o que estará relacionado com os níveis de escolaridade superiores (dada a herança histórica de baixa escolaridade na população portuguesa) e com questões geracionais (visto que se tratam de indivíduos que acompanham a entrada das novas tecnologias em fases mais favoráveis à aprendizagem).

Uma análise do consumo dos vários media por horas do dia permitiria avaliar com rigor o contacto dos indivíduos com os vários media. Acredita-se que a televisão é sobretudo vista à noite, enquanto a Internet e a rádio podem ser vistas durante o dia, ou a qualquer altura do dia. Na verdade, os consumidores não contactam apenas com um meio, mas com vários, por vezes ao mesmo tempo.

6.3. Novos media versus media tradicionais

Como vimos, uma das faces mais visíveis da chamada revolução digital é o aparecimento e consolidação de novos meios e novas formas de comunicação social. Alguns dos exemplos mais ilustrativos desta nova realidade são:

  • A proliferação e rápida difusão online de informação noticiosa, seja através de sites especializados, seja através de sites mais generalistas como é o caso dos motores de busca (e.g. Google, do Yahoo! ou do Sapo);
  • O crescimento exponencial da blogosfera;
  • A popularidade de sites de partilha de vídeo e imagens (tais como o Youtube ou Flicker);
  • A emergência e rápida ascensão de redes sociais online cada vez mais complexas e abrangentes (como por exemplo o Facebook ou Hi5);
  • A consolidação das tecnologias peer-to-peer, cujo desenvolvimento tem estado na base de projectos destinados à partilha de conteúdos à escala global (tais como o ambicioso projecto Joost, desenvolvido com o objectivo de instaurar a TV-online).

Os factos anteriormente referidos, entre outros, evidenciam a actual tendência para a proliferação e diversificação de novos meios e formas de comunicação. Esta realidade está a afectar de forma profunda o sector dos media, na medida em que os novos meios de comunicação social (na sua maioria meios internet-based) têm características substancialmente distintas dos meios de comunicação mais convencionais, nomeadamente no que respeita às (i) características dos serviços de comunicação; (ii) papel do receptor (iii) características dos mercados; (iv) barreiras geográficas; e (v) características tecnológicas.

As características dos serviços de comunicação constituem uma das grandes matrizes de oposição entre media tradicionais e novos media. Os chamados media tradicionais prestam um serviço de comunicação massificado: a mensagem é transmitida para uma vasta audiência e cada receptor é tratado de forma indiferenciada. Já os novos media, porque as suas características tecnológicas assim o permitem, prestam um serviço de comunicação personalizada, tomando em consideração a idiossincrasia nas características dos consumidores. Em resultado, os novos media defrontam-se com audiências fragmentadas, substancialmente distintas das audiências em massa características dos media tradicionais (pelo menos no passado).

Esta linha de oposição entre os dois tipos de media está intimamente ligada à questão do papel do receptor em cada um dos media. No contexto dos média tradicionais e da comunicação de massas, o receptor tem um papel tendencialmente passivo, sendo muito limitada a sua capacidade de feedback. Contrariamente, no caso dos novos media, o receptor tem um papel consideravelmente activo, verificando-se uma grande interactividade com o emissor de informação.

Efectivamente, no âmbito dos novos media, a comunicação emissor-receptor torna-se bi-direccional. Por um lado, o receptor tem a possibilidade de seleccionar e condicionar os conteúdos transmitidos pelo emissor, mediante a identificação prévia do tipo de conteúdos que está interessado em receber. Por outro lado, através dos novos media, o receptor tem a possibilidade de manifestar a sua opinião/ posição relativamente aos conteúdos transmitidos, o que, eventualmente, poderá gerar uma sequência de novas interacções entre emissor e receptor.

Em determinadas circunstâncias, a interacção emissor-receptor torna-se tão forte que os dois papéis acabam por se (con)fundir. Um exemplo ilustrativo desta realidade são as novas formas de comunicação baseadas no chamado user generated content, referente a conteúdos que estão publicamente disponíveis mas que são criados pelos utilizadores finais das plataformas media, como é, por exemplo, o caso dos conteúdos disponibilizados no Youtube ou na Wikipedia.

Em consequência das diferenças verificadas nas características dos serviços proporcionados pelos novos media e pelos media mais tradicionais, os mercados destes meios acabam por ter características bastante diferenciadas. Enquanto que os meios tradicionais se deparam com mercados maduros, bem delimitados e com um grau de justaposição relativamente reduzido, os meios de nova geração deparam-se com mercados em fase de crescimento e com um elevado grau de justaposição, dificultando a tarefa de delimitação do mercado de cada um dos meios de nova geração.

Em matéria da delimitação de mercados, a questão das barreiras geográficas é também um elemento diferenciador dos novos media face aos meios mais convencionais. Enquanto os factores geográficos tendem a assumir um papel relevante da delimitação dos mercados dos meios tradicionais, o mesmo não se verifica no caso dos novos media dado que estes são na sua maioria internet-based e portanto a mesma mensagem pode ser facilmente transmitida para qualquer parte do globo sem qualquer custo adicional.

Os vectores de diferenciação anteriormente avançados evidenciam as diferenças substanciais entre novos media e os media tradicionais, segundo uma óptica que privilegiou o lado da procura. No entanto, os meios tradicionais e os novos media distinguem-se também por factores relativos ao lado da oferta, nomeadamente no que respeita às características tecnológicas de cada meio. No caso dos meios tradicionais, existe um número relativamente reduzido de meios de comunicação baseados em suportes tecnológicos substancialmente diferentes (e.g. papel no caso da imprensa; conversão de ondas electromagnéticas em som, no caso do rádio; conversão de ondas electromagnéticas em som e imagem no caso da TV). Já no caso dos novos media, deparámo-nos com um elevado número de meios e formas de comunicação social (cujo desenvolvimento ainda está em curso). Não obstante, os diferentes suportes são na sua grande maioria internet-based, pelo que o grau de similaridade tecnológica entre os novos meios é consideravelmente elevado. Deste modo, por oposição aos meios tradicionais, cujas características tecnológicas estão perfeitamente delimitadas, no caso dos novos media, as linhas de distinção entre os diferentes meios e formas de comunicação tornam-se muito mais ténues.

Na tabela seguinte, apresenta-se de forma esquemática os principais vectores de diferenciação entre os meios tradicionais e os novos media.

Figura 6.7 – Media tradicionais versus novos media: principais vectores de distinção

Media Tradicionais Novos media
Tipo de serviço Serviço de comunicação em massa Serviço de comunicação customizado
Características dos mercados Mercados bem delimitados, limitado grau de sobreposição entre meios Audiências fragmentados e justaposição de mercados
Barreiras geográficas Papel determinante na delimitação dos mercados Papel relativamente reduzido na delimitação dos mercados. Barreiras culturais e linguísticas passam a assumir maior relevo
Papel do receptor Receptor passivo Receptor activo, permanente interacção emissor-receptor. Fenómeno do “user-generated content”
Características tecnológicas Reduzido número de meios com características  tecnológicas bastante diferenciadas Crescente número de meios e formas de comunicação social, cujas características tecnológicas tendem a aproximar-se. E.g.: web radio, web TV, podcasting, divulgação de informação noticiosa online

A tabela anterior evidencia que existem muitos níveis de distinção entre os novos media e os media tradicionais. Consequentemente, ainda que todos constituam formas de comunicação e transmissão de informação, opiniões, juízos de valor, etc., não é evidente até que ponto os novos media irão canibalizar os meios tradicionais ou, pelo contrário, irão complementá-los.

6.3.1. Complementaridade ou substituibilidade?

Neste subcapítulo avaliamos em que medida o consumidor tenderá a classificar os media de nova geração e os meios tradicionais como bens substitutos ou bens complementares. Em caso de complementaridade entre media tradicionais e novos media, a generalização dos novos media tenderá a reflectir-se numa expansão dos mercados dos meios tradicionais, criando oportunidades para os players já instalados no sector. Contrariamente, em caso de substituibilidade, a generalização e difusão dos novos media implica necessariamente uma contracção dos mercados dos meios tradicionais, constituindo uma potencial ameaça para os players instalados.

A aferição do tipo de interacção estratégica entre novos media e meios tradicionais revela-se uma questão bastante complexa na medida em que, teoricamente tanto podem ser avançados argumentos em favor de uma relação de complementaridade como argumentos em favor de uma relação de substituibilidade.

O advento dos novos media poderá assim despoletar efeitos de sinais opostos. Dado que as magnitudes relativas destes efeitos são a priori desconhecidas, não nos é possível estabelecer num plano teórico se prevalecem as relações de substituibilidade ou de complementaridade.

A corrente teórica em favor da substituibilidade novos media/meios tradicionais (“canibalização dos meios tradicionais”) considera os novos como alternativas aos meios tradicionais. À luz desta perspectiva, a generalização e difusão dos novos media consubstancia-se na canibalização dos meios mais tradicionais dado que os primeiros e os segundos competem pelos mesmos mercados (seja em matéria de audiências, seja em termos de anunciantes).

Relativamente às audiências, os defensores desta perspectiva argumentam que, com a generalização dos novos media, a atenção e o tempo dos consumidores tenderá a dispersar-se por um maior número de meios, materializando-se na contracção das audiências dos meios tradicionais. Do mesmo modo, no mercado publicitário, os anunciantes tenderão a repartir os orçamentos publicitários por um maior número de meios, originando uma quebra nas receitas publicitárias dos meios ditos convencionais.

Esta corrente argumenta ainda que, à medida que as tecnologias subjacentes aos novos media se vão consolidando, o processo de canibalização dos media tradicionais intensifica-se pois aumenta o reconhecimento das potencialidades dos novos media no domínio tecnológico e no domínio dos mercados.

Em matéria tecnológica, os novos media têm capacidades muito superiores, quer em termos do potencial volume de conteúdos disponíveis, quer em termos da actualização dos conteúdos e velocidade de transmissão dos mesmos. Em matéria de mercados, a grande potencialidade dos novos media comparativamente aos meios convencionais, reside nas suas capacidades de prestação de um serviço personalizado (quer às audiências, quer aos anunciantes). Os novos media apresentam-se aos consumidores de conteúdos como meios altamente interactivos, permitindo a selecção dos conteúdos transmitidos em conformidade com as preferências e necessidades dos consumidores, potenciando o permanente feedback emissor-receptor.

Adicionalmente, o emissor passa a ter um conhecimento profundo das características de cada um dos consumidores individualmente considerados, estando portanto em condições de oferecer um serviço diferenciado também no mercado publicitário (target advertising). Neste mercado, os novos media já não se limitam a vender eyeballs indiferenciados aos anunciantes na medida em que têm a possibilidade de efectuar a triagem da sua audiência, vendendo aos anunciante eyeballs cujas características correspondem ao mercado-alvo dos anunciantes, o que aumenta a eficácia dos investimentos publicitários.

Em suma, os defensores da corrente da canibalização colocam em causa a sobrevivência dos meios tradicionais, argumentando que estes passam a estra em concorrência directa com os novos media, que, pelas suas maiores potencialidades, tenderão a sobrepor-se aos meios convencionais.

No entanto, esta corrente não é consensual e muitas vozes se têm levantado contra a ideia de que os media tradicionais tenderão a ser canibalizados pela nova geração de media. Ainda que ninguém conteste que os novos media poderão tornar-se concorrentes dos meios tradicionais, os defensores da perspectiva da complementaridade argumentam que o impacto final do advento dos novos media é favorável aos meios tradicionais na medida em que os efeitos negativos anteriormente citados coexistem com efeitos de sinal positivo, que, poderão mais do que compensar os efeitos subjacentes à concorrência directa.

Esta corrente mais positiva enfatiza a possibilidade de sinergias entre meios tradicionais e novos media, considerando que estes podem estimular os mercados dos media tradicionais (que parecem ter atingido a fase da maturidade).

Na óptica da oferta de conteúdos, os novos media estimulam a produção de conteúdos nos meios tradicionais, uma vez que constituem uma fonte (quase) inesgotável de ideias para o desenvolvimento de novos conteúdos mediáticos. Os exemplos deste tipo de sinergias são abundantes e estendem-se às mais diversas áreas de produção de conteúdos mediáticos (desde o entretenimento até à informação). No caso português, um dos exemplos mais ilustrativos é o famoso episódio de violência na escola Carolina Michaelis no Porto, que tendo começado por ser divulgado como um vídeo no Youtube!, rapidamente se estendeu aos meios tradicionais, estimulando a realização de reportagens, peças informativas, debates e outros conteúdos informativos.

Segundo os defensores da corrente da complementaridade, para além das potenciais sinergias observadas ao nível da oferta de novos conteúdos, os novos media também geram sinergias do lado da procura. Mais precisamente, argumenta-se que determinados conteúdos disponibilizados nos novos media acabam por criar nos consumidores novas necessidades relativamente aos conteúdos disponibilizados pelos meios tradicionais. Esta situação contribui para dinamizar o mercado dos meios mais convencionais, amplificando o efeito das sinergias positivas observadas do lado da oferta.

À luz dos argumentos anteriores, constata-se que a canibalização dos meios tradicionais não é uma inevitabilidade e, em determinadas circunstâncias, novos media e meios tradicionais poderão coexistir numa relação de complementaridade. A tabela 6.8 resume os argumentos anteriormente apresentados.

Tabela 6.8 – Relação media tradicionais versus novos meios: Canibalização ou complementaridade?

Complementaridade Canibalização
Conteúdos online poderão constituir um estímulo à oferta de conteúdos offline (não só conteúdos noticiosos mas também conteúdos de entretenimento e outros). Concorrência pelo tempo e pela atenção dos consumidores (recursos escassos)
Facilidade de divulgação online de “user-generated content” pode estimular a procura por novos conteúdos offline Concorrência pelos recursos publicitários (os orçamentos publicitários repartem-se por um maior número de meios)
Meios tradicionais com capacidades mais limitadas em matéria da rapidez de transmissão e volume de informação disponibilizada
Personalização vsus standardização

Conforme evidencia a tabela anterior, existem diferentes linhas de opinião quanto à possibilidade de canibalização dos meios tradicionais pelos novos media.

Concomitantemente, num plano estritamente teórico, não é possível estabelecer se os novos media e os meios tradicionais têm uma relação de complementaridade ou, ao invés, de substituibilidade. Não obstante, a aferição da relação novos media – meios tradicionais pode ser efectuada num plano empírico. Ainda que esta análise seja necessariamente casuística na medida em que depende das características específicas dos mercados estudados, a realização de estudos empíricos sobre esta temática revela-se de grande importância. Nomeadamente, a investigação empírica permite (i) averiguar a pertinência de cada um dos argumentos identificados na tabela 6.8; (ii) comparar e identificar regularidades entre os mercados analisados; (iii) identificar em que circunstâncias os efeitos positivos prevalecem e vice-versa; e (iv) monitorizar a evolução da relação entre novos media e meios tradicionais.

Apesar da importância destes estudos, a evidência empírica relativamente à natureza da relação novos media-meios tradicionais é ainda muito escassa. A principal determinante desta escassez é a falta de dados disponíveis particularmente no que se refere à performance dos novos media seja em matéria de audiência, seja em matéria de receitas publicitárias.

Gentzkow (2007) investiga a relação entre a imprensa online e a imprensa offline no mercado americano (mais concretamente em Wahsington DC). Apesar dos dados recolhidos indiciarem uma correlação negativa entre a performance da imprensa online e da imprensa offline, o autor demonstra que esta correlação é essencialmente explicada por factores relacionados com a heterogeneidade individual das preferências dos consumidores, pelo que, para o mercado em causa, o grau de substituição entre imprensa online e imprensa escrita acaba por menor do que poderia ser, a priori, esperado.

Filistrucchi (2005) investiga a relação entre a imprensa online e a imprensa offline no mercado italiano (mais concretamente o mercado dos principais diários nacionais). Os resultados de Filistrucchi (2005) sugerem que a introdução da imprensa online teve um impacto fortemente negativo na imprensa escrita e, inclusivamente, a aposta no mercado online por parte dos players instalados na indústria acabou por ser prejudicial pois a aposta no mercado online por parte dos jornais já existentes mo mercado conduziu a uma redução das vendas de jornais impressos não só dos jornais rivais mas também do próprio jornal.

Kaiser (2006) concentra-se na imprensa alemã, mais precisamente no mercado das revistas entre 1995 e 2004. À semelhança dos estudos anteriores, os resultados de Kaiser (2006) fornecem evidência empírica em favor da teoria da substituibilidade na medida em que a introdução de sites online se consubstanciou numa quebra média de 4,2% na circulação das revistas impressas.

Contrariamente, Pauwels and Dans (2001) obtêm evidência empírica em favor da teoria da complementaridade. O estudo concentra-se no mercado da imprensa espanhola (mais concretamente os principais diários nacionais) e os resultados obtidos sugerem que, no caso em análise, a participação no sector offline constitui um dos determinantes críticos para o sucesso das empresas de imprensa no sector online.

Os estudos anteriores evidenciam que do ponto de vista empírico não existem ainda regularidades suficientemente fortes que permitam rejeitar qualquer dos argumentos teóricos apresentados no início deste capítulo.

Consequentemente, a observância de situações de canibalização ou complementaridade entre novos media e meios tradicionais depende sobretudo das características específicas de cada mercado, bem como da actuação dos players instalados (que através das estratégias adequadas podem transformar eventuais ameaças de canibalização em situações de oportunidade).

6.3.2. Novos media: ameaça ou oportunidade?

No ponto anterior analisava-se em que medida, na óptica dos consumidores, os novos media poderão ser considerados como bens substitutos ou bens complementares dos media tradicionais. À luz dos argumentos teóricos e dos estudos empíricos apresentados, concluiu-se que a prevalência dos efeitos de complementaridade ou substituibilidade depende das especificidades dos mercados em questão.

Consequentemente, não é possível afirmar (pelo menos no contexto actual) que os meios tradicionais têm os seus dias contados. De qualquer forma, atendendo às potencialidades extraordinárias dos novos media em matéria de capacidade de armazenamento e velocidade de difusão de informação, opiniões e valores, existe o risco de que o advento dos novos media possa representar uma ameaça para os players instalados na indústria. Estes vinham desenvolvendo a sua actividade no contexto dos meios tradicionais, pelo que, com o advento dos novos media, poderão ser confrontados com a necessidade de downsizing (ainda que parcial) da sua actividade.

Neste contexto, a questão que se coloca é a de averiguar até que ponto a concorrência dos novos media poderá constituir uma ameaça para os players tradicionais e em que medida estes poderão transformar essa ameaça numa janela de oportunidade. Apesar da complexidade intrínseca destas questões, a corrente dominante considera que os players com actividades desenvolvidas prévias no sector dos meios tradicionais, apesar das potenciais ameaças representadas pelo processo de convergência e o advento dos novos media, estão em condições privilegiadas para alcançar posições dominantes também no mercado dos novos media.

Ainda que os players já instalados tenham a sua actividade concentrada no segmento dos meios tradicionais, se estes players adoptarem adequadas políticas de reposicionamento estratégico (alargando a sua actividade ao segmento dos novos media), os tradicionais players dominantes estarão em condições muito favoráveis para se tornarem players dominantes também no segmento dos novos media.

Em particular, os players tradicionais estão numa posição privilegiada para utilizar o seu know-how e experiência acumulada no sentido de potenciar sinergias (quer do lado da oferta, quer do lado da procura) e assim criar efeitos de complementaridade adicionais. Do lado da oferta, os players que actuam simultaneamente no segmento dos novos media e dos meios tradicionais podem beneficiar de uma série de economias, nomeadamente economias de escala e economias de gama. Optando pela produção conjunta, estes players evitam a duplicação de muitos custos fixos comuns aos dois negócios (por exemplo, custos de recolha/aquisição de informação).

Para além das vantagens custo anteriormente referidas, ao apostar numa estratégia de extensão dos seus negócios ao segmento novos media, os players tradicionais também podem criar sinergias do lado da procura, nomeadamente através do aproveitamento de economias de rede e da aposta no cross-selling.

O aproveitamento de economias de rede, refere-se à possibilidade dos players instalados, com audiências consolidadas nos meios tradicionais, utilizarem a sua influência para expandirem os seus mercados em matéria de novos media. Tal expansão pode resultar de transferência directa de audiências mas também do aproveitamento de efeitos de reputação decorrentes do aproveitamento da imagem e da credibilidade que estes players já terão consolidado nos meios mais convencionais. O aproveitamento das economias de rede pode também entender-se aos mercados publicitários, em que os players instalados no sector poderão recorrer ao seu prestígio nos mercados dos meios convencionais para alargar o seu mercado publicitário em matéria de novos meios.

Um exemplo exímio da exploração das dinâmicas de complementaridade ao nível da procura dos novos meios e dos meios tradicionais é a prática de cross-selling (quer junto dos consumidores, quer junto dos anunciantes). Através desta técnica comercial, os players instalados tentam aproveitar-se da sua posição de domínio num mercado, para estimular as vendas noutros mercados, por exemplo através da venda de “pacotes” de serviços referentes a diferentes segmentos de mercado (bundling).

Conscientes das sinergias anteriormente descritas, os tradicionais players dominantes têm vindo a adoptar uma agressiva política de investimentos no sentido de alargar a sua actividade aos novos media e obter uma posição de liderança também neste segmento. Estas movimentações fazem-se sentir um pouco por todos os mercados, inclusivamente no mercado português. Os principais grupos económicos em actividade no mercado português assumem o contexto de mudança e estão a efectuar investimentos muito consideráveis na área dos meios digitais, de forma a não perder a influência que têm desempenhado nas últimas décadas.

Neste contexto de forte investimento, começam a verificar-se alterações significativas na estrutura de custos e de proveitos desses grupos. Os investimentos no segmento digital têm vindo a representar um peso cada vez maior em termos de custos e, simultaneamente, os novos media começam a tornar-se um driver de receitas (apresentando taxas de crescimento assinaláveis, mesmo que o seu peso em termos absolutos seja ainda incipiente). A fim de ilustrar estas movimentações por parte dos principais players portugueses, a tabela que se segue reproduz a evolução das receitas e custos obtidos pelo grupo Impresa (um dos principais operadores no mercado de media português) no segmento Digital.

Figura 6.9 – Dados financeiros do segmento Impresa Digital (Grupo Impresa) Jun-07/08

Os dados apresentados na figura 6.9 revelam de forma muito clara o forte dinamismo no segmento digital, com os custos e as receitas deste sector a crescerem a taxas muito elevadas, que em alguns casos atingem os três dígitos. O segmento digital encontra-se assim em plena fase de crescimento e, uma vez atingida a maturidade poderá certamente vir a tornar-se numa fonte de rentabilidade (cash cow) para este player (e outros players tradicionais) de forma a compensar os actuais investimentos.

Em síntese, verifica-se que, no actual cenário de mudança acelerada, os meios tradicionais enfrentam grandes desafios. Se por um lado tais desafios podem revelar-se uma forte ameaça ao sucesso dos players tradicionais (como enfatiza a corrente da canibalização), por outro lado, os players tradicionais estão numa posição privilegiada para transformar essas ameaças em oportunidades, enveredando por estratégias de alargamento e diversificação do core business aos novos media.

Neste contexto, tem sido manifestada alguma preocupação sobre os efeitos dos novos media em matéria de concentração, temendo-se que os novos media em nada venham contribuir para reduzir os actuais elevados níveis de concentração observados nos mercados dos media.

6.4. Modelos de distribuição e acesso aos novos meios

Se, nos pontos anteriores, focámos a questão da diferente apropriação dos meios digitais informativos principalmente em função da idade, centrar-nos-emos agora na questão da estratificação social do acesso aos novos meios e no que isso implica para o potencial destes para o pluralismo da informação. Por outras palavras, o eventual potencial dos media digitais, em si mesmos e pela configuração que o mercado de informação lhes dê, para um pluralismo de informação é largamente condicionado pelas desigualdades de classe pré-existentes na sociedade e que irão governar também a relação com a tecnologia.

«Qualquer vantagem de comunicação oferecida pelos novos media é provável que venha a ser distribuída de forma desigual, replicando desigualdades informacionais existentes. Aqueles que já possuem mais educação, mais familiarizados com as tecnologias inovadoras, e mais capazes de adquirir dispositivos como os computadores pessoais são precisamente aqueles que mais beneficiam dos novos media» (Croteau e Hoynes, 2003: 330).

A estruturação dos media digitais em função do mercado responde a uma estrutura de mercado em que os media, suportados por publicidade, procuram adaptar os seus produtos para as classes média e média-alta. Embora pareça radical afirmar que «aqueles a quem falta poder de compra significativo, especialmente os pobres, são de pouco interesse para a indústria dos media» (Croteau e Hoynes, 2006: 40), visto que estes são audiência de meios mais populares, a tendência é claramente a de estruturar a oferta de media em função dos segmentos mais rentáveis, de classes médias e média-altas.

Os dados e figuras incluídos na secção 6.2 apontam para uma distribuição desigual do acesso aos meios digitais em função da classe social. Associados a esta classificação por classe, estão os factores de escolaridade, rendimento e ocupação.

Na verdade, a ocupação, que decorre em grande medida da escolaridade e ajuda a definir a classe social, pode comportar-se como a variável mais discriminante: 97,4% dos quadros médios e superiores utilizam a Internet, contra 8,2% das domésticas (dados de Setembro de 2008)[10].

Conjugando esta distribuição dos media digitais, penalizadora para as classes mais baixas, com a questão da fraca representação dessas classes a nível dos produtos mediáticos (com preocupações comerciais e publicitárias e, por isso, orientadas para segmentos mais afluentes) e a nível da opinião (onde há um predomínio de sectores mais favorecidos da sociedade), podemos concluir pelo enviesamento produzido pelos media digitais como uma continuação e agravamento da situação criada pelos media clássicos.

6.4.1. Outras fontes de desigualdade

Além da desigualdade no acesso aos media digitais gerada pelas diferenças de idade/geração e da classe social, há razões para acreditar em outros níveis de desigualdade em função do género e também da etnicidade; ou ainda do estilo de vida, fase do ciclo de vida, estrutura do lar, influência de culturas nacionais e regionais (McQuail e Siune, 2002).

As estatísticas da União Europa mostram, por exemplo, que os lares com crianças têm mais probabilidade de ter computador (70% contra 46% que existem em casas sem crianças), acesso à Internet (55% contra 38%) e uma ligação de banda larga [11] (18% contra 12%) (Eurostat 2005)[12]. Este factor conjuga-se com outros, como o país, o grau de urbanização/ruralidade, educação, custos de acesso e idade.

Como se pode observar pelas Figuras 6.1 e 6.2, os lares com três pessoas ou mais representam um peso maior no conjunto dos que possuem computador em casa (82,3% de entre este grupo, contra 32,3% dos lares com uma ou duas pessoas), e entre os que possuem ligação à Internet em casa (71,1% contra 28,2% de cada grupo).

Na conjugação dos diversos factores de desigualdade, constata-se que as mulheres com pouca educação (e consequentemente, nas classes económicas inferiores) «continuarão a ser o grupo mais discriminado pelo desenvolvimento e difusão das tecnologias da informação no lar» (McQuail e Siune, 2002: 153).

Num país que viu na última década a transformação dos fluxos migratórios para uma explosão na imigração, será oportuno questionar também a distribuição dos media digitais entre a comunidade imigrante, como forma de avaliar também a integração na cidadania e democracia portuguesas (vide Estudo sobre Recepção dos Meios de Comunicação Social).


[1] http://www.rr.pt/InformacaoDetalhe.aspx?AreaId=11&SubAreaId=107&ContentId=261699

[2] Artigo de 13/Out/2008, em http://industrias-culturais.blogspot.com/2008/10/pluralismo-poltico-versus-concentrao.html.

[3] Os conteúdos disponibilizados por alguns canais temáticos ilustram estas políticas estratégicas de pseuso-diversificação. Nestes canais a diversificação de conteúdos não resulta tanto da aposta em conteúdos inovadores (que permitam alargar o tipo de programas e temas cobertos pelos referidos canais) mas antes numa aposta de reorganização e repetição da programação.

[4] In http://weblog.com.pt/portal/blogometro/, consulta em 27/Out/08.

[5] In www.ine.pt.

[6] In www.erc.pt (http://www.erc.pt/index.php?op=vernoticia&nome=noticias_tl&id=191), consulta em 29-Out-2008.

[7] In http://www.marktest.com/wap/a/n/id~1186.aspx, consulta em 30-Out-2008.

[8] In http://www.marktest.com/wap/a/n/id~11c5.aspx, consultado em 29-Out-2008.

[9] Neste Anuário, os perfis de audiências de Internet estão agregados por grupos de media, não permitindo distinguir as audiências dos sites informativos de outros do mesmo grupo que não lidam com informação.

[10] In http://www.marktest.com/wap/a/n/id~1180.aspx, consulta em 30/Out/2008.

[11] A ligação de banda larga, por seu turno, é um indicador de um uso mais longo e com mais fins do que a ligação por linha telefónica.

[12] In http://ec.europa.eu/eurostat.