Posted by on Mar 23, 2011 in Fugas de informação | 0 comments

A Eurodeputada Ana Gomes acusa a Alemanha de preconceito pelo sul da Europa. Numa entrevista ao jornalista Diogo Carreira, Ana Gomes mostra-se ainda preocupada com a situação na Líbia e critica a posição da União Europeia em relação ao regime de Kadhafi.

Diogo Carreira (DC): Com as mudanças no apelidado por vezes mundo Árabe, de que forma é que a União Europeia olha para esta região?

Ana Gomes (AG): A União Europeia tem olhado de uma forma errada. Tem sobrevalorizado os fluxos migratórios e as relações económicas com esses países. Claro que são importantes, mas não podem ser um factor determinante do relacionamento com os países da orla sul do Mediterrâneo. Por outro lado, a União Europeia tem desvalorizado a obrigação de promover democracias e direitos humanos. Por isso é que muitos dos revoltosos no norte de África mostram um desapontamento em relação à União Europeia pela forma como conduziu as suas políticas externas, em contradição com os seus princípios. Na prática apoiou e sustentou os tiranos que os diferentes povos árabes estão agora a escorraçar.

DC: Diz que a União Europeia apoiou estas ditaduras mas agora vemos que a própria Europa começa a congelar bens dos líderes depostos. Não é uma contradição?

AG: É uma contradição desde logo com os princípios da União Europeia. Os diferentes Governos valorizaram mais a política económica e de migração, defendendo cada vez mais a ideia de uma Europa fortaleza.

DC: Então a Europa deve apoiar os regimes que defendeu de certa forma até agora, ou apoiar os ideias que parecem estar a surgir?

AG: As pessoas nestes países estão a demonstrar os valores que nós defendemos! Muitas vezes com a própria vida.

DC: Defende que é tempo de defender estas vontades emergentes…

ana gomes, eurodeputadaAG: Com certeza. Devemos apoiar aqueles que desde a Tunísia ao Egipto, passando agora pela Líbia, estão a levantar-se para exigir melhores condições de vida, por liberdades e democracias. Nós não vemos manifestações anti-ocidentais. Ninguém queimou bandeiras de Israel, da União Europeia ou dos EUA.

DC: Mas imagine que os regimes autoritários resistem e não saem do poder.

AG: Estas movimentações populares mostram que os povos estão sequiosos de Democracia, de liberdade de expressão e de liberdades políticas a que têm direito. Não podemos continuar a justificar o apoio às ditaduras com o pretexto de que elas seriam o garante contra os movimentos fundamentalistas. Temos obrigação de ajudar estas pessoas que querem aquilo que nós queremos.

DC: E essa ajuda deve ser feita de uma forma directa?

AG: Deve e pode. Temos um quadro doutrinário e acordos para isso.

DC: De que forma?

AG: Através de ajuda financeira, por exemplo. Apoios destinados a apoiar a construção de instituições democráticas, desde logo a existência de media com liberdade e independência.

DC: Ainda vamos a tempo?

AG: Vamos a tempo. Não podemos esquecer que também temos um papel importante na garantia da organização de eleições livres. Muitos destes países não têm partidos políticos, tal como não tínhamos antes do 25 de Abril. Devemos passar esta experiência para estas nações.

DC: Recentemente criticou as palavras do ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado. Considera que o Governo tem tido uma atitude errada?

AG: Não foi recentemente, eu critiquei desde sempre. Eu sou totalmente favorável ao estabelecimento de relações económicas. Não critico que tenham sido desenvolvidas as relações económicas com estes países. O que critico é que se tenha tentado ser ultra-zeloso ao ponto de se dar respeitabilidade e credibilidade a regimes que não mereciam. Particularmente o líbio, dirigido por um louco. Um louco de provas dadas de ataques terroristas. Ver dirigentes portugueses a dizer palavras elogiosas a este louco terrorista ou viajarem à Líbia para celebrar os 40 anos de ditadura, francamente não aceito.

DC: A Ana sempre foi muito crítica em relação a vários assuntos. Não receia represálias?

AG: De maneira nenhuma. Eu estou na política para ser construtivamente crítica, principalmente em relação ao meu partido. Do meu partido eu tenho expectativas.

DC: E nunca teve problemas?

AG: Claro que tive. Esse é o perigo que se passa e é para isso que estou na política.

DC: Voltando as atenções à situação no nosso país. Existe o receio de que Portugal terá de recorrer ao Fundo de Estabilidade Europeu. Paulo Rangel já defendeu que o nosso país não vai ter outra hipótese. É da mesma opinião?

AG: Não concordo de todo. Nem com Paulo Rangel nem com todos aqueles que têm uma opinião fatalista e derrotista. Todos sabemos que estamos numa situação difícil e apoio totalmente o Governo de José Sócrates em resistir. Sabemos que estes ataques feitos pelos especuladores têm como objectivo destruir o Euro. A Europa tem de voltar a ter políticas que passam pela sustentação do Euro. Têm de haver mecanismos que consigam corrigir os desequilíbrios macro-económicos.

DC: Mas esta situação é sustentável?

AG: Não tenho dúvidas nenhumas de que este ataque feito a Portugal está muito relacionado com o preconceito que os Alemães têm em relação ao nosso país e aos países do sul e que não têm em conta aspectos essenciais de sustentabilidade, nem de governabilidade económica e até do interesse deles a longo prazo. Na próxima cimeira de Março a Europa tem de tomar medidas de flexibilização do fundo que pode diminuir os juros de empréstimos, também para nós. Estão a querer empurrar-nos para o fundo que até sabemos que não tem as melhores condições, tal como nos mostram as situações da Irlanda e Grécia. O objectivo final destes especuladores é chegar a Espanha e em Espanha os nossos amigos alemães têm muito dinheiro enterrado. Aí vai-lhes bater à porta e vão perceber que são necessárias medidas. Portugal não pode separar-se de Espanha.

DC: A oposição defende que no caso de Portugal ter de recorrer ao fundo, terá de haver uma mudança de Governo. Nesse cenário, José Sócrates seria a melhor escolha do Partido Socialista?

AG: O pior que podia acontecer era termos uma crise política. O Governo está numa trajectória de contenção orçamental e de medidas de austeridade que eu gostaria que fossem mais justas socialmente. Estratégia que tem a aprovação do principal partido da oposição e que está comprometido neste percurso. O Governo tem de resistir.

DC: Temos as eleições do PS à porta. Acredita que José Sócrates será reeleito?

AG: Penso que não fazia sentido mudar a liderança do Governo nem do Partido Socialista. Não acredito que seja agora que vá haver mudanças.

DC: Como vê a existência de várias candidaturas?

AG: Isso é normal dentro de um partido democrático. Independentemente da importância do debate de ideias que cada uma vai trazer, tenho poucas dúvidas que a maioria dos socialistas vai reeleger José Sócrates.

DC: Mesmo a terminar: nas divulgações do Wikileaks, a Ana é referida como sabe como um “rottweiler à solta”….

AG: (risos) A minha reacção é esta. É de rir. Incomodarei muita gente… pois… e não largarei e não largo (risos).

DC: É uma ofensa ou um elogio?

AG: O intuito poderia ser ofensivo, mas eu tomo como um elogio. As causas em que me meto são causas que merecem persistência.